quarta-feira, setembro 19, 2007

Locais (absolutamente) a evitar:


Santa Engrácia em primeiríssimo lugar.

Aquilino já lá está. O sr. Silva foi (ou vai) lá hoje assinar o papel.

Próximos candidatos:

- Mário Soares
- Bin Laden

O quê? Bin Laden? O terrorista! (sim, porque não? – já lá está o Aquilino!). Não pode ser! (gritam os puristas). E se o corpo nunca aparecer? Não faz mal põe-se um cenotáfio (para os menos entendidos um cenotáfio é um monumento fúnebre de homenagem a alguém em que o paradeiro do corpo é desconhecido). Não, não aceitamos! Não se esqueçam que face à lei 28/2000 só lá podem estar cidadãos portugueses.

Não há problemas naturaliza-se o tipo (nem que seja a título póstumo).

Como vêem pode acontecer! Basta o parlamento aprovar!

E não nos esqueçamos que ainda há dois lugares vagos na capela do Aquilino e do Delgado.

Quanto a Mário Soares. Alguém tem dúvidas?

A minha dúvida é qual a orquestra que eles arranjam para o tal do Laden

terça-feira, setembro 18, 2007

De luto carregado

Voz amiga deu-me, agora mesmo, a notícia da morte de Henrique Pinho.

Grande camarada, valorosíssimo. Disposto a levar até ao fim as suas ideias e ideais. Lutou, desde 1962 (data em que o conheci) até aos anos 80, após a sua saída da prisão.

Depois manteve-se fiel. Víamo-nos (pelo menos) sempre no 10 de Junho, no Monumento aos Combatentes do Ultramar.

Vai estar em câmara ardente a partir das 18 horas na Igreja da Praça de Londres.

Que finalmente descanses em paz!

E a tua vida foi uma vida vivida e uma vida que valeu a pena.

Na hora da perda de mais um grande camarada, só posso gritar:

HENRIQUE PINHO PRESENTE!

Afinal é tudo igual!


Luís de Sttau Monteiro, conhecido "pequeno e médio intelectual" ligado ao PC dizia antes do 25 do 4 que "todos os anos pela Primavera havia prisões em Abril e cargas policiais em Maio".

Dei-me conta disto depois de ter lido o postal de Pacheco Pereira. Na realidade os "colossos culturais" dos "anti-bandidos" também começaram as suas prisões (em massa) em Abril. E a tal procuradora bem ameaçou chamar o corpo de intervenção da PSP (na altura a esquerda chamava-lhe a polícia de choque) para varrer os nacionalistas da rua.

Como vêem é tudo igual. Mijas fora do penico (ou seja não reverencias as autoridades), logo levas, e mais, se for preciso fazer horas extraordinárias para os manter presos, fazem-se (que os palermas dos contribuintes pagam).

Mas afinal porque é que os gajos não violaram, assaltaram ou mataram. Assim já estavam cá fora. Conclusão:

Não percebem nada de direito!

Limito-me a transcrever Pacheco Pereira


LENDO, VENDO, OUVINDO
ÁTOMOS E BITS
de 17 de Setembro de 2007

Uma das áreas em que há situações calamitosas em Portugal (e são várias) é a da justiça. Nada parece melhorar apesar da contínua agitação governamental. Basta ouvir um noticiário para perceber a crise:

- temos dois ministros da justiça: Alberto Costa e Maria José Morgado;

- temos um interessante critério político na "pressa" em evitar a saída de alguns presos preventivos. Alguém, pressuroso, informou os órgãos de comunicação social que o país pode estar calmo: saíram ou vão sair acusados de assassinatos, violações, etc., mas não será libertado Mário Machado, o dirigente dos skinheads, que é acusado de incitar ao ódio racial, algo que em países genuinamente liberais não é crime, nem sequer delito de opinião. Tudo na longa manutenção de prisão preventiva de Mário Machado é estranho e aponta para razões puramente políticas, o que é inadmissível numa democracia.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Os crimes dos "bons"



No seguimento do meu postal de hoje sobre os "bons e os maus" vejam este pequeno filme. (não recomendável a pessoas mais sensíveis). Trata-se do fuzilamento de alguns prisioneiros de guerra da X Mas, executados pelo novo exército italiano, com supervisão americana.

Querias julgamento, querias... Levas umas doses de democracia e liberdade em cima que te lixas...

Georgios Karatzaferis

















Pois é. Passo a passo lá se vai amealhando uns pontitos. O bom do Georgios Karatzaferis lá conseguiu na Grécia levar o seu partido Laos ao Parlamento.

Não são nacionalistas - tal como os entendemos em Portugal. Mas são mais uma pedrada no charco partidocrático em que vivemos nesta Europa de Bruxelas.

Bom exemplo. Descomplexado e descontraído. Dizendo as verdades que o povo pensa mas é incapaz (por medo) de dizer em voz alta. à consideração de quem anda nessas vidas.

O feitiço contra o feiticeiro...

Não não se trata de qualquer apreciação anti-semita, meu caro anónimo (que pensa - e engana-se - que eu sou anti-judeu).

Trata-se apenas de uma notícia que nunca chegará a Portugal por outras formas que não através deste meio.

Ao fim e ao cabo é uma confirmação daquilo que eu várias vezes já escrevi. Numa guerra nunca há os bons e os maus (são todos maus!).

E que notícia é essa:

Um general israelita, antigo director do memorial Yad Vashem, em Jerusalém, de seu nome Isaac Arad, de 81 anos, é suspeito de crimes de guerra contra o população civil e prisioneiros lituanos durante e após a IIª GM. O Procurador lituano Rimvydas Valentukevicius pediu às autoridades israelitas para o interrogar. É como cá se diz, um arguido.

Segundo o procurador o inquérito está ligado ao assassinato de dezenas de civis e de prisioneiros de guerra. O sr Arad, segundo o inquérito iniciado em Maio de 2006, terá participado em execuções (até de resistentes lituanos), enquanto membro do NKVD (polícia política soviética).

O Sr Arad, interrogado na passada terça feira pelo jornal polaco Rzeczpospolita, nega as acusações e afirma tratar-se de uma tentativa de vingança por parte dos herdeiros dos colaboracionistas lituanos, dos nacionalistas e de radicais de todas as cores.

Como historiador reconhecido pelas autoridades vencedoras participou em todas as acusações contra os nazis e recentemente deslocou-se aos EUA para participar no julgamento dos lituanos Alexandras Lilejkis e de Algimantas Dajlide, que perderam a nacionalidade americana e foram expulsos dos EUA.

Agora tocou-lhe a ele. Vamos ver o que isto dá, ou seja, nada! Apesar dos documentos encontrados. (não, não se trata de depoimentos de historiadores ou de testemunhas!)

Fontes: AFP, RIA e Novosti.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Ainda Luis Fernandes

Pois, eu passo a vida a dar o dito por não dito. Disse que encerrava - para já - o dossier Moçambique e eis que encontro na minha papelada a primeira entrevista dada por Luís Fernandes sobre o seu calvário. Não resisto a publicá-la na íntegra. Também há entrevista ao Diabo. Vou ver se a encontro.

Pois aqui vai:

"MOÇAMBIQUE POR DETRÁS DAS GRADES - ANTES E DEPOIS DA INDEPENDÊNCIA

Andava eu, algures, por terras do Algarve, cumprindo o meu roteiro profissional, quando por felicidade inesperada encontrei um velho Amigo e Camarada – o termo é militar – que supunha irremediavelmente perdido pelas latitudes tropicais de Moçambique, nos campos de concentração da Frelimo, malgrado as afirmações peremptórias do ministro Vítor Crespo, a 7 de Dezembro do ano, negando a existência de prisioneiros portugueses no paraíso de Machel.
Recordo-me da última vez que nos abraçámos. Foi no Hospital Militar de Lourenço Marques, onde, em circunstâncias diferentes nos encontrávamos. Eu com baixa e ele de consulta, mas cercado por antigos companheiros de armas como se de um criminoso se tratasse.
Luís Fernandes, capitão miliciano do “GEP`s”, era uma das muitas vítimas imoladas no holocausto da descolonização concebida pelos “moscovozinhos” da nossa Pátria. Mas deixemos que seja Luís Fernandes a fazer-nos o relato do nosso Portugal oitocentos anos secular, reduzido como está agora, às dimensões anãs do ano de 1400.

DETIDO COM APARATO EM LOURENÇO MARQUES

Século – Quando e onde se deu a detenção que se prolongou num cativeiro de 16 meses?
Cap. Luís Fernandes – Foi em Lourenço Marques e no Hotel Polana, em 18 de Outubro de 1974. A detenção foi efectuada por dois capitães do Exército Português, que se encontravam acompanhados por cerca de quinze miltares da Polícia Militar.
Século – Perante tamanho aparato militar a surpresa decerto não foi pequena, até porque, aparentemente, nada justificava a referida actuação por parte das Forças Armadas…
Cap. Luís Fernandes – Exactamente, eu estava hospedado no Hotel Polana, sem problemas de ordem jurídica, porquanto pagava as minhas contas e não provocava desacatos, pelo que não havia alguma razão que motivasse qualquer medida a tomar pelas autoridades civis ou militares da Província de Moçambique.
Século – Quais foram os motivos alegados para a detenção que obrigou à mobilização espalhafatosa de mais de uma dezena de militares?
Cap. Luís Fernandes – Os motivos não foram de ordem jurídica mas do que se pode considerar de ordem revolucionária. Foram fundamentados em suspeitas que se afirmavam existir a meu respeito, quanto a supostos “crimes” contra a descolonização, o que constitui matéria não prevista no Código Penal Português em vigor, nem em qualquer diploma existente naquela altura.
Século – Portanto, não houve acusação de um delito concreto…
Cap. Luís Fernandes – Não havia qualquer acusação concreta. Havia, sim e apenas, o termo genérico de “crimes contra a descolonização” que era uma matéria que justificava ou pretendia justificar todas as prisões arbitrárias que se sucederam a partir da minha detenção em Lourenço Marques, e foram em crescendo até ao período da entrega total da Província de Moçambique à Frelimo, por altura da independência.

DESERTORES E GUERRILHEIROS – “AS NOSSAS TROPAS”

Século – Verificada a detenção foi-lhe facultada a assistência de um advogado, ou terão decorrido os interrogatórios sem a satisfação dessa norma elementar?
Cap. Luís Fernandes – Fui preso, como anteriormente afirmei, por indivíduos trajando civilmente, mas identificados como elementos da Polícia Militar Portuguesa e oficiais do Exército, nomeadamente dois capitães. Estes transportaram-me para o Quartel-General do Comando Territorial do Sul, onde cheguei às 4 horas da madrugada do dia da minha detenção, tendo seguido escoltado pela P.M. para uma sala que era, se não erro, a 2.ª Repartição. Nessa sala aguardava-me um representante da Frelimo, recém-instalada em Lourenço Marques, que não era nada menos que um desertor da Força Aérea Portuguesa, concretamente, Jacinto Veloso, ex-tenente da F.A.P., que anos antes se tinha passado para Dar-es-Salam a bordo de um bombardeiro “T/6” que entregou ao inimigo, estando assim dentro do estabelecido pelo Código de Justiça Militar para os casos de pena de morte.
Concluindo, não me foi permitido um advogado e como inquiridor nomearam um desertor das Forças Armadas Portuguesas.
Século – Quer dizer então que foi interrogado por Jacinto Veloso?
Cap. Luís Fernandes – Não. Aquele desertor pretendeu de facto interrogar-me, mas como recusou identificar-se, quando por mim instado, também me neguei ao diálogo por ele proposto. Fiquei assim a aguardar interrogatório posterior entre dois guerrilheiros uniformizados da Frelimo, e de resto mal uniformizados, os quais me apontavam ameaçadoramente as suas espingardas “kalashs”.
Ante atitude tão insólita, porque era um antigo combatente português, preso por oficiais portugueses e pela Polícia Militar do meu país, perguntei a um dos capitães que interveio na minha detenção – capitão Camilo – se não havia ninguém mais, para além dos guerrilheiros da Frelimo, para me guardar, ao que me respondeu, ironicamente, dizendo eu estar a leste do Acordo de Lusaka, porque naquele momento os guerrilheiros eram “as nossas tropas”. Não haja espanto, porque as “ironias” do capitão Camilo não ficaram por aqui, antes se salientaram quando, no primeiro interrogatório, não obtendo o que pretendia, como afirmações susceptíveis de comprometer determinadas individualidades civis e militares, me ameaçou com a entrega à Frelimo que poderia ocasionar uma atitude mais colaborante da minha parte.
Perante a minha indignação – que se expressou do seguinte modo: será você capaz de entregar à Frelimo antigos camaradas de guerra? – respondeu o capitão Camilo que, naquele momento, o inimigo era eu.

ROTEIRO DO PRISIONEIRO

Século – Foi sujeito ao longo dos interrogatórios levados a cabo pelo capitão Camilo a uma persuasão agressiva, com ameaças físicas?
Cap. Luís Fernandes – Ele não me ameaçou propriamente com maus tratos físicos, mas deixou entender, para quem não fosse desprovido de imaginação que o tratamento dado pela Frelimo não seria o previsto na Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Século – Relate-nos, cronologicamente, o seu primeiro roteiro como prisioneiro.
Cap. Luís Fernandes – Fui detido às 3 horas da madrugada de 18 de Outubro de 1974 e no próprio dia transferido para a cadeia da Machava onde me mantiveram no mais absoluto segredo durante quatro dias. Ao cabo de dois ou três interrogatórios ao estilo daquele que já citei, fui conservado em regime de menor vigilância dentro dessa prisão, tendo em seguida sido transferido, com outro companheiros entretanto presos, para a Penitenciária de Lourenço Marques.
Mas, deixe-me referir, no que respeita às atitudes dos inquiridores durante o processo instrutório que o tal capitão Camilo reconheceu não haver contra mim qualquer prova de ordem jurídica mas, acrescentou, que no período revolucionário as provas jurídicas não tinham importância relativa e se era verdade que a meu respeito não tinham provas, também não tinham dúvidas. Isto significava, nos termos do “revolucionário” Camilo que podiam fazer de mim o que desejassem e achassem mais útil. E fizeram…
Século – Portanto, situa-se este relato que faz em período anterior à independência de Moçambique…
Cap. Luís Fernandes – Precisamente. Todo o relato que acabo de fazer situa-se no período do chamado Governo de Transição, em que a autoridade era exercida em nome do Presidente da República por um Alto-Comissário que representava a Soberania de Portugal em Moçambique, na medida em que era a Bandeira Verde-Rubra que lá se içava legal e legitimamente.
Século – Quando foi entregue à Frelimo e como se verificou a transferência dos prisioneiros portugueses sob a alçada da responsabilidade do Alto-Comissário para os carcereiros de Machel?
Cap. Luís Fernandes – Houve vagas sucessivas, seguidas de dois em dois dias, em que alguns elementos escolhidos, não sei com que critério, mas habitualmente antigos militares passados à disponibilidade em alturas muito recentes foram transferidos das autoridades portuguesas do Comando Territorial do Sul, em Lourenço Marques, para as pseudoautoridades da Frelimo. Muitos foram enviados para Porto Amélia e dali para as chamadas “zonas libertadas”, no interior do Distrito de Cabo Delgado.
Século – A vossa ida para os campos de concentração existentes nas “zonas libertadas” efectuou-se antes ou depois do 25 de Junho de 1975?
Cap. Luís Fernandes – Fomos enviados para os campos de concentração como prisioneiros da Frelimo cerca de três meses antes da data da independência de Moçambique, ou seja, em plena vigência da autoridade do Alto-Comissário. Em plena vigência da autoridade do hoje general Melo Egídio, então Comandante do Comando Territorial do Sul, a quem os presos estavam confiados e, portanto, esta transferência nunca se poderia ter dado sem o consentimento do Alto-Comissário da República Portuguesa, Vítor Crespo.

AVIÃO DA FORÇA AÉREA PORTUGUESA TRANSPORTOU PRISIONEIROS DE MUEDA PARA A TANZÂNIA

Século – Para que “campos de recuperação” foram posteriormente conduzidos?
Cap. Luís Fernandes – Antes de sermos enviados para os chamados “campos de reeducação” da Frelimo, transferiram-nos para Mueda, onde em bloco fomos submetidos a julgamento popular, que teve por consequência a nossa condenação à morte sob as acusações mais diversas e caricatas, tendo a referida pena sido substituída, ulteriormente, por trabalhos forçados indefinidos.
O grupo de prisioneiros era então constituído por portugueses originários da Metrópole e alguns elementos oriundos da Província de Moçambique, dos quais citarei a dr.ª Joana Simião, Pedro Mondlane e outros dirigentes indígenas que haviam desertado das fileiras da Frelimo e recolhido às autoridades portuguesas para se reintegrarem na Comunidade Lusíada, e depois por estas entregues aos apaniguados de Samora Machel. Lembro-me de alguns nomes destes últimos: dr. Júlio Razão e o eng. Paulo Marquesa.
Após o julgamento popular foram os portugueses originários da Metrópole dispersos por diversas bases que serviam de campos de concentração, nomeadamente a Base Beira, próximo de Nangade e de Omar, a Base Moçambique –. A também conhecida por Base Central, localizada relativamente perto do Nangololo, a Base Gungunhana é outras cujo indicativo não recordo.
Quanto ao grupo formado por elementos naturais da Província Portuguesa de Moçambique, foi-lhes dado como destino o Campo de Nashingwea, no território da Tanzânia, sendo para ali transportados em avião militar português, Nord/Atlas da Força Aérea Portuguesa, que rumou da pista de Mueda para Dar-es-Salam.

PRISIONEIROS ABANDONADOS PELAS AUTORIDADES PORTUGUESAS

Século – Qual o número de portugueses seus companheiros de cativeiro nos campos de concentração de Cabo Delgado?
Cap. Luís Fernandes – Dos presos pelas autoridades militares de Lourenço Marques, éramos sete. Mas, para além de nós, havia nas prisões e campos de concentração da Frelimo muitos ex-militares portugueses, principalmente elementos de tropas especiais, directamente detidos por guerrilheiros ainda no período em que a única soberania que se exercia oficialmente em Moçambique era a de Portugal, sem que isso obstasse o total abandono a que nos votaram na altura da independência em circunstâncias deploráveis, que facilmente se imaginam.
Acho que não serão necessários grandes raciocínios para classificar esta situação como escandalosa, pois que para além dos aspectos humano, político e patriótico que encerra, denuncia uma aberração jurídica que, por si só, define uma capitulação total de uma autoridade que se recusava a existir por abdicar dos seus direitos e deveres para com os cidadãos que representava.
Século – Punham-vos ao corrente das “démarches” que entretanto se promoviam com vista à vossa libertação?
Cap. Luís Fernandes – De modo algum. Para que faça uma ideia da nossa existência, peço-lhe que recorde as imagens do filme “O Planeta dos Macacos” e dimensione a nossa vivência à dos extraterrestres desvinculados de qualquer rumor da civilização. Para além de tudo o mais, tínhamos os responsáveis da Frelimo pela nossa vigilância que gaguejavam, e muito mal, o português, sendo carcereiros cuja missão era a de nos dificultar a todo o momento a vida e não segredar-nos palavras de esperança.

TRABALHOS FORÇADOS SEM OBJECTIVOS DE RENTABILIDADE – EVACUAÇÃO DE TÁXI AÉREO

Século – Pode concretizar o tipo de regime a que vos sujeitavam os homens da Frelimo?
Cap. Luís Fernandes – Éramos sujeitos a um regime de trabalhos forçados da mais diversa ordem, principalmente no domínio agrícola. É evidente, mesmo para quem desconheça as realidades locais, que o estilo de produção é do mais primitivo possível, sendo o trabalho totalmente manual, de resto de pouca rentabilidade económica, até porque os trabalhos a que nos sujeitavam eram destinados mais a tornar-nos a vida insuportável do que a visar objectivos rentáveis.
Século – Quando se verificou o vosso regresso a Lisboa?
Cap. Luís Fernandes – O nosso regresso realizou-se após a deslocação do Secretário de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros a Lourenço Marques. Fomos então, (…) de Porto Amélia para a Beira, onde embarcámos com destino a Lisboa, escalando em Luanda.

UM POLÍCIA ESQUECIDO EM PORTO AMÉLIA

Século – Havia ainda em Porto Amélia (Pemba) algum elemento da P.S.P. portuguesa?
Cap. Luís Fernandes – Não. O único polícia português que lá se encontrava e encontra ainda, era um agente de origem europeia e natural de Portugal, detido pela Frelimo e por esta muito mal tratado. Convém salientar que o referido agente foi abandonado por camaradas seus da P.S.P., que regressaram a Portugal findo o contrato com o governo de Moçambique, em Dezembro do ano passado, sem exigirem o seu repatriamento.
Século – Já não era, portanto, aquando da vossa libertação, embaixador de Portugal em Moçambique, o dr. Albertino de Almeida?
Cap. Luís Fernandes – Não. Albertino de Almeida que não é, aliás diplomata de carreira mas apenas um advogado, já não se encontrava à frente da Embaixada de Portugal em Moçambique.
De resto, considero oportuno referir que o advogado Albertino de Almeida sempre foi um elemento da confiança do Partido Comunista Português, tendo sido em Angola colaborador directo de Lopo do Nascimento, do M.P.L.A. e talvez por isso se compreenda que quando embaixador de Portugal em Moçambique jamais tivesse tomado uma atitude a favor dos prisioneiros portugueses, como ainda impediu os funcionários consulares de promoverem qualquer diligência no sentido de melhorar a situação dos cidadãos portugueses encarcerados pela SNASP, que são em número superior a três centenas, não obstante as declarações em contrário proferidas pelo ministro Vítor Crespo.

O FURRIEL MOTA DOS COMANDOS AINDA PRESO EM MOÇAMBIQUE

Século – Quando do regresso a Lisboa foram alvo de interesse por parte da Imprensa portuguesa?
Cap. Luís Fernandes – A nossa chegada quase passou despercebida, não tendo havido por parte da Imprensa portuguesa qualquer interesse em saber o que tínhamos passado e o que sucedia ainda aos muitos portugueses detidos em Moçambique, sujeitos a um regime de desgaste físico e psíquico que os visa aniquilar.
Século – Colocamos o nosso espaço ao seu dispor para o caso de pretender referir qualquer assunto que não tenha sido abordado ao longo deste diálogo.
Cap. Luís Fernandes – Gostaria de frisar que há ainda em Moçambique muitos cidadãos portugueses detidos depois da independência daquele território. Há também um caso escandaloso que é o do furriel Mota, dos Comandos, preso pela Frelimo pouco depois da passagem à disponibilidade, antes da independência de Moçambique, portanto ainda sob a soberania portuguesa, o qual se encontra ainda num campo de concentração, ao que suponho algures em Cabo Delgado. Urge que as autoridades diplomáticas e governamentais do nosso País actuem rapidamente, com firmeza e energia, no sentido de serem libertados todos os nossos compatriotas.


Texto de Carlos Didier
In O Século de Joanesburgo, 19.04.1976, pág. 15"

O vento mudou e ele virou...

Ou o "viracasaquismo" no seu melhor...

Ontem lembrei-me muito do Amândio César. Contador de histórias ímpar. Com uma memória invejável. Igual, igual (para não dizer melhor) só me lembro do António Manuel Couto Viana. E eu, mais novo, e com a minha memória neste estado.(não é justo)

Bem este pequeno intróito tem a ver com um personagem bem desconhecido quer nos meios nacionalistas quer até nos do "reviralho". Mas que teve a sua importância.

Falo do advogado e escritor Dr. Virgílio Godinho (Prémio Ricardo Malheiros de 1942).

E quem era o indivíduo.

Estudou em Coimbra. Nunca se aproximou muito dos Integralistas. No entanto frequentava assiduamente os ambientes católicos. Ajudou Rolão Preto a formar os "Camisas Azuis" portugueses, de quem foi um dos principais apoiantes. O seu braço começou a ser levantado assiduamente.

No entanto e com a sua personalidade pouco dada a papéis subalternos, decide, por volta dos meados de 1941, criar um novo movimento. O Movimento Nacional-Corporativista dos Trabalhadores Portugueses. Igualzinho ao NSDAP, só que em vez de socialista se lia corporativista. Estava, na época por Coimbra. No entanto em 1942 já o movimento está bem implantado não só em Coimbra mas também em Lisboa, Porto, Barreiro e Covilhã (dois dos principais pólos operários portugueses da época). Conta com muitos apoios. Amândio César também por lá anda. Luís de Quadros também, e etc.
Nessa altura Hitler era poderoso e parecia invencível.

Só que o "vento mudou e ele virou".

Enfim a rotina habitual nos sem coluna vertebral. E para onde?, para um salazarismo versão soft? para a Acção Católica? Não nada disso. Foi logo para os que ele pensava serem os vencedores de amanhã. Vêmo-lo frenético em tudo o que é democracia, oposição, chega a ligar-se aos comunistas (que felizmente tinham vergonha e lá o escorraçaram um bocadinho).

Em 1958 vemos o nosso homem com Humberto Delgado (um dia conto-vos umas histórias de um dos mais fiéis de Delgado - o dr. Rodrigo de Abreu). Ainda frenético. Dizendo mal de Salazar, da Democracia Orgância pela qual se tinha tanto batido. A fé católica já tinha ido também às urtigas. (diz-se que passou a usar avental...). Em pleno marcelismo tenta uma aproximação à União Nova (designação que Marcelo e sus muchachos queriam colocar à antiga União Nacional de Salazar, até chegarem à versão final de ANP). Mas nem esse albergue espanhol o aceita. Vai então para o Congresso da Oposição Democrática de Aveiro, como representante do PC de Castelo Branco. Como vêem carreira bonita!

Enfim um regabofe. Ou seja, como diria Manuel Múrias (pai): "ele foi nosso, hoje é deles e amanhã (se não tivermos vergonha) será outra vez nosso".

quinta-feira, setembro 13, 2007

Prisão do Luis Fernandes

Para acabar, para já, com esta saga sobre os acontecimentos de Moçambique e relaccionados, quero falar hoje da prisão do nosso muito Luís Fernandes.

O Luís já tinha sido vítima de represálias aquando da sua tomada de posição no jornal Expresso (Maio 74). Em 7 de Setenbro encontrava-se em Lisboa. Pouco tempo depois avança para Moçambique, enquanto o Comandaante das Operações (um Coronel) aguardava, na África do Sul, para entrar em Moçambique de acordo com o desenvolvimento das acções do nosso Luís.

Entrando (semi-clandestinamente) em Moçambique por via férrea é transportado para Lourenço Marques (como ajudante de camionista). Na sua bagagem o seu uniforme. Várias vezes parado pelo bloqueio frelimista e dos mfa, consegue, contudo, chegar à capital de Moçambique, onde inicia (de imediato) os seus contactos. Traído por alguém é preso pelo MFA em 19 de Outubro de 74. É interrogado pelo famoso Capitão Camilo (Hoje Major General desta tropa que temos, e nomeado - por Paulo Portas !!!! - vice presidente da liga dos combatentes.

Dois dias depois (e já resultado da sua acção) ocorre a revolta dos Comandos, que eles tiveram grande dificuldade em travar.
Com ele livre e junto dos GE e GEP seria muito difícil ao mfa aguentar-se!

O resto da história é conhecida. Luís Fernandes é entregue (pelas FFAA "portuguesas"???) à Frelimo. E transportado em avião militar português para as bases da Frelimo, juntamente com Joana Simeão e etc. A ordem de entrega à frelimo é também do mfa Camilo. (o amigo do Portas!!! - Paulo, que não Miguel...).Pela primeira vez na História de Portugal um Oficial do nosso exército é entregue ao inimigo.

E só em Janeiro de 1976, depois de passar o indiscritível, é que o Luís é solto (depois de um período de "engorda e restabelecimento" propiciado pela frelimo para evitar demasiadas críticas internacionais. Regressado a Lisboa, poucos dias depois está já em Madrid, parta continuar o combate, apesar de bastante diminuído fisicamente. Porque moralmente nunca o conseguiram abater, pese embora a quantidade de fuzilamentos a que assistiu.

E, já em Madrid, dispôs-se a continuar de imediato o seu combate. Fosse onde fosse e para o que fosse. Foi aí que eu (acabadinho de regressar de umas coisas) o reencontrei e pude de novo abraçá-lo comovidamente!

quarta-feira, setembro 12, 2007

Ter opinião custa muito!

Ao longo destes meses temos sido bombardeados por um caso mediático que tem a ver com uma criança inglesa.

Para mim a única coisa que está em jogo (e a única verdadeiramente importante) é que há (ou houve) um drama terrível. O da Criança.

O resto cabe às autoridades especializadas descobrir, e fazer punir. E assim deveria ser.

Só que nós vivemos num mundo mediático. Os "media, ou mídia..." quais pitbulls desvairados não largam a presa. Em vez de serem (como se auto-proclamam) órgãos de informação, são (todos eles) empresas que precisam de facturar. Para isso precisam de casos destes. (Casa Pia - Incêndios - GNR Sta Comba Dão, etc.).

E criam o tal alarme social imprescindível ao nosso querido Ministério Público.

São acima de tudo órgãos de manipulação (manipulados) de especulação (manipulados) de julgamento social (manipulados).
E quando não são manipulados às vezes até inventam (já aconteceu - e acima de tudo ficou provado - pelo menos nos EUA).

Jornal houve nos EUA (do Sr. Hearst) que tudo fez para haver a Guerra contra os espanhóis em Cuba, para aumentar exponencialmente as suas vendas e concomitantes receitas. Desde sempre foi assim, por muito que custe aos nossos "independentes e probos" jornalistas. Vende tem emprego. Não vende - rua. Tão simples quanto isto.

Agora não se armem em puras donzelas ofendidas por piadas carroceiras. Vendem, ponto final. Tal como os vendedores de rabanetes, de cafés ou de telemóveis.

Fazer passar uma pessoa - ou neste caso um casal - de bestial a besta. é fácil. Basta sugerir e logo todos se voltam contra o objecto da sua sanha. E compram, e compram para saberem mais, sempre mais.

Não tenho capacidade nem conhecimentos para ter qualquer opinião neste caso. Nem eu nem 99,9999999% dos portugueses.

No entanto façam uma "sondagem". Garanto-vos que todos vão ter opinião!

E continuamos assim.

Nota desanimada: Desde um caso que teve a ver com um jovem de "extrema direita" (condenado a pesada pena) que perdi a virgindade. Acredito tanto na capacidade da actual PJ como acredito no Pai Natal. Mas garanto que eles apresentam um culpado. Faz-me lembrar o atentado bombista contra Salazar junto da casa do Pai de Freitas do Amaral. Três polícias investigaram e todas apresentaram o grupo dos culpados (com confissão e tudo). Só que eram três grupos diferentes, e só um deles (o posterirmente julgado) é que era o responsável. Ou seja, não é de agora!

Viriato do Niassa - 3















No último postal omiti (e muito me penalizo por isso) o nome de dois outros heróis portugueses que perderam a vida no mesmo local e data de Daniel Roxo.

São eles José Correia Pinto Ribeiro (Carnaval), ex - GEP, paraquedista trazido da Guiné pelo Coronel Costa Campos. Foi o principal operacional nas operações mandioca, em Moçambique. O outro é Ponciano Silva Soeiro, ex-comando e operacional dos Flechas. Eram três dos melhores comandos do Batalhão Bufalo (n.º 32).

Jazem hoje juntos em Pretória.

terça-feira, setembro 11, 2007

Viriato do Niassa - 2



Hoje quero recordar Daniel Roxo, português grande entre os grandes.

Transmontano de nascimento doou-se completamente à defesa da Pátria.

Morreu em território português de Angola continuando a luta onde o deixaram - no Batalhão 32 do Exército Sul Africano. Ele que foi sempre o Comandante aceitou as divisas de Sargento e decidiu (como tantos outros da sua estirpe) continuar o combate.

A sua acção em combate foi épica. A ele e a outros poucos portugueses se deve a grande vitória da ponte 14 (Dezembro de 1975 - no rio Nhia) em que milhares de cubanos e MPLA foram clamorosamente derrotados pelo Batalhão 32. Durante a batalha os portugueses do Batalhão 32 sofreram quatro mortos. Os Cubanos e MPLA perderam mais de 400 homens, embora o número exacto seja difícil de determinar pois, como a BBC mais tarde informou, camiões carregados de cadáveres estavam constantemente a sair da área em direcção ao norte. Entre os Cubanos mortos estava o comandante da força expedicionária daquele país, o Comandante Raul Diaz Arguelles, grande herói da Cuba de Fidel. E note-se sem a intervenção de meios aéreos! Só com apoio da artilharia.

Foi cronologicamente a última grande batalha em que soldados portugueses (no século XX) se bateram. E bem!

Trata-se de uma batalha que nas nossas Academias Militares não é estudada (nem sequer conhecida), mas que pelas inovações tácticas e emprego de pequeníssimos grupos de comandos deu resultados bem inesperados (para os cubanos, é claro). No entanto esta batalha é estudada (e bem) nas academias russas, britânicas e americanas (algumas).

Poucos meses depois o nosso Daniel Roxo morria em combate. Antes contudo tinha já recebido a maior condecoração sul africana (equivalente à nossa Torre e Espada). Só no primeiro reconhecimento abateu (sozinho) 11 inimigos a tiro.

Durante uma patrulha perto do rio Okavango, o seu Wolf (veículo anti minas semi blindado) rebentou uma mina e foi virado ao contrario, matando um homem e esmagando Roxo debaixo dele. O resto da tripulação tentou levantar o veiculo para o libertar mas era demasiado pesado. Breytenbach, (antigo comandante dos Búfalos, no seu livro (Eles vivem pela Espada - They Live by the Sword, pp. 105) escreveu:

Danny Roxo, mantendo-se com o seu carácter intrépido, decidiu tirar o melhor partido das coisas, acendendo um cigarro e fumando-o calmamente até que este acabou, e então morreu - ainda esmagado debaixo do Wolf. Ele não se tinha queixado uma única vez, não tinha dado um único gemido ou grito, apesar das dores de certeza serem enormes.

Assim morreu o Sargento Danny Roxo, um homem que se tinha tornado numa lenda nas Forças de Segurança Portuguesas em Moçambique, e que rapidamente se tinha tornado noutra lenda nas Forças Especiais Sul Africanas.

Viriato do Niassa




POEMA DE LUTO PESADO – II

(Morreu a combater por um Portugal de Portugal – Além-Mar-em-África, em fins d’Agosto de 1976, por ter caído numa armadilha de fabrico soviético, quando acudia em salvação de um dos seus homens)

Ao Abel Tavares de Almeida, com aquele abraço!...

O teu habitat há-de sempre ser à prova de devassa.
Está nesse mato
Mulato
Em que assentaste praça,
E que já hoje, de raiz, te abraça
— Viriato
Do Niassa!

Ao peso de capa de capim, que te revista,
Ou sob o tórrido tampão de terra que assista
À tua ausência
— É de pé, e bem a prumo, que o teu corpo agora jaz!

E, ao terrorista
Sem rumo,
Ainda hoje impões tenência
E passo atrás!

Até ao fim, fizeste a guerra
Por amor de um país chocho,
E frouxo,
Hoje por hoje entregue À cobardia.

(Ouves-me aí, Daniel,
DANIEL ROXO?...

— Esta pobre terra não te merecia!)

Mas, lá do regaço — ingrato —
Desse mato tropical,
Em que tu, afinal, ficaste intacto
— Já nem a própria morte te rechassa,
Viriato
Do Niassa!

E daí que eu te cante
E que eu te conte,
Comandante,
No horizonte d'este instante
Sem horizontes defronte;
E que daqui em diante
Não me cale —
Em recado encomendado
Para o solo, sacral
E tão sagrado,
Ao colo do qual
Já tu estás soldado.

Irado,
Absorto e reclinado
Sobre a sombra do teu corpo
Ou aos pés da tua alma
Ajoelhado,
Eu sei que estou, afinal,
Perante o desconforto,
Sem igual,
De ver baixar, ao teu coval,
Portugal amortalhado!

Recolha, agora, à sombra lisa d’uma lousa.
E, na asa abrasadora d’uma brisa,
Em paz repousa
Do esforço quinto-imperial,
Que tens levado.

Dá longas tréguas de sono
A esse teu corpo moço
— De colono
E de colosso;
De soldado
Ao solo dado!...

Rodrigo Emílio

segunda-feira, setembro 10, 2007

E o Jardim vinha ou não vinha?



É claro que nunca iria!

Sempre foi a nossa opinião, conhecidas que eram as suas esperanças de colaboração com a Frelimo e com Machel. Ele achava que ainda teria um papel relevante em Moçambique.

E tantos e tantos morreram com essa esperança ... Inocentes e crédulos.

Mas se nós tinhamos fundadas certezas, faltavam-nos as provas. Mas esse "grande português"? (Jaime N Pinto dixit) não estava pelos ajustes. Outros "valores" mais altos se apresentavam...

E como nos surgem as provas.

Já falei de um velho e valoroso Camarada Carlos Veríssimo Veiga que se "arrepiou" com as atitudes de Jardim. No entanto continuou com ele (a ver o que dava, disse-me na véspera da minha partida de Lourenço Marques para Lisboa). Pois o nosso Carlos viu o que se passou. E horrorizou-se! E escolheu - e quanto a mim bem - o único caminho que lhe restava, vir para Madrid, para junto dos seus camaradas (não se esquecendo, contudo de trazer vasta documentação "secreta" daqueles dias).
Eu nunca mais o vi desde Setembro de 73, mas tive a sorte de ler esses documentos... Ou seja as cartas de Jardim para os seus contactos para Moçambique no período anterior, decorrente e posterior ao 7 de Setembro.

Poucos anos depois CVV terá eventualmente pago com a vida este seu acto. (é só uma mera opinião minha, não tenho qualquer prova que corrobore esta afirmação). CVV tinha vasta experiência na luta política. Era um operacional. Tinha sido dos melhores alunos de um curso que os camaradas da OAS ministraram em Portugal a jovens nacionalistas nos anos 60. Sabia avaliar riscos, enfrentar situações complicadas, tinha as técnicas de segurança bem estudadas e sabia aplicá-las. Contudo caiu (aparentemente) como um patinho numa emboscada numa estrada da Namíbia feita (oficialmente) por um grupo de banditagem e abatido a tiro. Será que ele pararia e sairia do carro se não fosse gente conhecida?

Não quero tirar qualquer conclusão. Acho muito estranho, apenas!

O que aconteceu a 7 de Setembro



Nesse dia, Mário Soares e Samora Machel concluiram em Lusaca o calendário para a independência do território. O ministro dos negócios estrangeiros português (Mário Soares), sempre pressuroso em agradar aos seus interlocutores, alargou-se em generosidades e insistiu em não apresentar quaisquer condições que aquietassem o terror que se ia apossando de todos os moçambicanos hostis à entrega do poder a um movimento armado, ultraminoritário e comunista. Divulgado o acordo para a transmissão de poderes, realizou-se nos arrabaldes de Lourenço Marques um ajuntamento da FRELIMO, no termo do qual se deram largas ao ódio anti-português. Pontificaram nas arruaças membros do grupo "Democratas de Moçambique", maioritariamente ligados ao advogado e milionário Almeida Santos.

A bandeira portuguesa foi arrastada num camião pelas ruas perante a população. Foi o rastilho. Sem que aqueles que estavam a preparar activamente a resposta dessem por isso, ou sequer a planeassem milhares de pessoa de todas as etnias ocuparam o aeroporto, a estação do Rádio Clube de Moçambique, as redacções dos jornais e conglomeraram-se numa imensa massa humana nas principais artérias da capital. As autoridades que tinham tomado conta "disto" atacaram de imediato os portugueses revoltados, com ameaças muito explícitas. O PS e o PCP emitiam comunicados que não deixavam qualquer margem para contemporizações. O PS afirmava sem rebuço: "não pode admitir-se que uma minoria de reaccionários impeça o caminho do povo de Moçambique para a sua própria libertação. (...) A descolonização portuguesa constitui uma forma nova, original e revolucionária, sem paralelo em experiências estranhas, de formar uma aliança de povos senhores dos próprios destinos e livres da ingerência das superpotências" (in República, 10.09.1974). O PS ainda fazia ainda parelha com o PCP nesse conturbado Setembro em que Spínola, cada vez mais patético do alto da sua arrogância autista, pedia que a "Maioria Silenciosa" se pronunciasse.

Samora Machel e alguma "tropa fandanga" portuguesa puseram-se de acordo e decidiram agir. Spínola enviou ameaças aos líderes da revolta portuguesa, insinuando que se fosse preciso mandava a aviação bombardear o Rádio Clube de Moçambique. Diz-se (Jorge Jardim, in Moçambique Terra Queimada e Clotilde Mesquitela- 7 de Setembro) que Soares terá pronunciado a terrível ameaça: "se for preciso, atirem-nos [aos revoltosos] ao mar".

A jornaleiragem de Lisboa tentou por todos os meios escamotear a dimensão do movimento, imputando-o a uma minoria sem expressão. Contudo, a revolta foi colectiva, cobrindo a quase totalidade das minorias branca e asiática, a quase totalidade dos miscigenados e vastos sectores da população negra. A liderança do movimento englobava muitos dirigentes negros importantes - Joana Simeão (Macua), Kavandame (Maconde), o pastor Uria Simango, mas também Grilo (ex PCP), Neves Anacleto (avô do Louçã), etc. Ou seja muita gente - chefia nenhuma. E quando digo que não havia chefia, significo com isso que não havia ninguém reconhecidamente capaz de agregar o autêntico "melting pot" surgido expontaneamente nessa data.

A Manuel Gomes dos Santos, que comandava a RCM, faltava-lhe a capacidade política para definir rumos e estratégias. Gonçalo Mesquitela não pode assumir a direcção do movimento por ser considerado próximo do anterior regime. Ou seja toda aquela gente (menos os nossos - que já não tinham qualquer dúvida sobre ele) esperava por Jorge Jardim.

A partir do dia 9 (nesse dia chegaram tropas da Frelimo de avião, vindas da Tanzânia) e, com o apoio (ou a cumplicidade por pura omissão das FFAA "portuguesas"), começou a vingança dos comunas. Centenas de mortos. Violações. Roubos e destruições. No dia 9, transportados de avião, chegaram aos subúrbios de Lourenço Marques os primeiros efectivos da FRELIMO.

O movimento esboroava-se. Continiuava à espera do D. Sebastião: Jardim (que nunca mais vinha, pudera...)

Machel, de Dar-es-Sallam, estimava que os "vagabundos e criminosos" (A Capital, 10 de Setembro 1974) seriam esmagados, no preciso momento em que o Vitor Crespo, assumia em Lisboa as funções de Alto Comissário Geral de Moçambique.

No preiamar das matanças e desmandos, Rui Knopfli, director de A Tribuna de Lourenço Marques, açulava: "esses grupos activistas são compostos por filhos de família, ex-comandos e um sector da pequena burguesia comerciante, que por ignorância se deixaram arrastar nesta aventura".

Recordações, para que vos quero...

Ou melhor ainda, resposta a um leitor (Panzerfaust).

Pacheco Pereira, ainda bem recentemente, falou na necessidade de surgirem mais memórias dos tempos passados. Falava, é claro, da esquerda e extrema esquerda. Enumerou, na altura, uma série de memórias já publicadas (algumas bem incompletas, como as do Narciso da ARA). Da direita e extrema direita não falou. Para ele estes não são gente.

É certo que há muito pouca vontade de falar (até porque muita gente está viva, outros que mudaram de camisa, etc.). Também a omni presença na historiografia académica portuguesa da esquerda caviar não permite (ou não aconselha) publicações sobre determinados assuntos.

No entanto um jovem Investigador de uma Universidade Italiana veio a Portugal fazer uma tese académica sobre "A Extrema Direita em Portugal - 1945/1974).

Muniu-se, para isso, para além das credenciais da sua Universidade (que lhe deram acesso a muitos arquivos - PIDE, Salazar, Legião, MP, etc) de uma série de contactos que lhe permitiram entrevistas pessoais com algumas (muitas) pessoas que viveram a experiência em estudo.

Foram quase dois anos de investigação. Já li o rascunho final de alguns capítulos referentes a uma época e entidades em que algumas coisas vivi. Parece-me um trabalho de muito fôlego, bem documentado, não faccioso. Tem algumas falhas, fala de alguns factos (que bem explicados teriam melhor entendimento), mas globalmente é livro que se recomenda vivamente (apesar de algumas pessoas que vestiram "jaqueta nueva" nos seus depoimentos não contarem tudo, ou melhor dizendo, contarem à sua moda).

O trabalho (tanto quanto eu sei) está em discussão académica. Será objecto de publicação em Itália e já há uma editora que conseguiu os direitos para ser lançada (posteriormente) a tradução portuguesa. E vão ver que vão gostar muito do livro.

Depois da sua publicação em Portugal terei então oportunidade de fazer alguns acrescentos naqueles factos que vivi e presenciei. Até lá aguardemos a versão final.

E é neste livro que Luís Fernandes já conta algumas coisas. Poucas, é certo.

Mas mais importante que o período pré-abrilino será o período pós-25. Eu sei que é cedo para falar de algumas coisas, mas ficar-se-á a conhecer muitas coisas que são completamente desconhecidas para o grande público e até para os historiadores (com documentos e tudo...). E aí o Luís (e não só - recordo já outro que há muito não aparece publicamente, mas que se mantém fiel aos seus ideais) tem um papel fundamental.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Mas como é que se chegou aqui!


No seguimento do postal sobre o "Unidade" convém explicar mais algumas coisas.

O grupo que então se estava a consolidar dispunha de muitos elementos de diversas etnias, com um objectivo comum. Continuarem portugueses.

Vários jovens de diversas origens em que se destacaram os filhos Mesquitela e os filhos Cardiga, auxiliados por diversos elementos mais "musculosos" da OPVDC (Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil - uma espécie de defesa civil semi militarizada) e por não poucos camaradas já bem batidos nas lutas contra os comunas na Metrópole estavam já em confronto com os estudantes pró-comunistas da Universidade. Isto antes do 25.

Com o 25 toda a organização foi reforçada e continuou-se com o recrutamento. Ocorreram alguns choques - verbais e físicos - com os "brancos progressistas e maçónicos". E lentamente começou-se a pensar a sério em diversas actividades.

Como disse o nosso Luís Fernandes estava em Moçambique. A sua força e prestígio eram muito grandes. Também se passou a contar com o apoio e colaboração de Daniel Roxo (herói mítico do Niassa) e a quem Rodrigo Emílio dedicou um dos seus mais belos poemas (na data da sua morte provocada por uma mina na faixa de Caprivi), apelidando-o, muito acertadamente de "Viriato do Niassa".

Ora o nosso Luís cometeu um "erro" (eu por um lado considero que sim, por outro acho que o que ele fez foi muito bem, porque demonstrou uma coragem ímpar). Esse "erro" custou-lhe alguns dissabores, mas também lhe outorgou muito prestígio.

E que "erro" foi esse?

No dia 24 de Abril o nosso Luís embarcou ao fim da noite para Moçambique. Tinha estado na Metrópole em férias. Umas horas antes de partir pode avisar as hierarquias militares que o "golpe" seria nessa noite. Muito admirado ficou quando chegou ao verificar que nada tinha sido feito e que eles tinham "provisoriamente" ganho. Logo escreveu uma carta ao Expresso (publicada nos primeiros dias de Maio) em que declarava continuar com as mesmas ideias e ideais e que iria agir em conformidade. Foi a bronca das broncas. Alguém que afirmava num jornal que iria agir em conformidade com as suas ideias foi uma pedrada nos "abrilinos".

Bom, isto só para dizer que o Luís já não tinha comando de tropas no dia 7 de Setembro.

E falo disto tudo porque continuo a aguardar as esperadíssimas memórias do Luís que o Rodrigo insistiu (na última conversa que com ele tive) que fossem rapidamente publicadas. Quando elas surgirem muitas coisas verão a luz do dia pela primeira vez!

7 de Setembro - o crime






7 de Setembro. Data carregada de memórias para Portugal.

Cerca de 150 anos antes foi a data da Independência maçónica do Brasil. Nessa data, em 1974, Mário Soares e Almeida Santos concluiram o Protocolo de Lusaka (que entregava o poder à Frelimo) e o anexo (secreto) militar.

Em Lourenço Marques os jovens brancos da Associação Académica e os velhadas (brancos) dos Democratas de Moçambique (de Almeida Santos e sus muchachos) substituiam a carência de quadros revolucionários da Frelimo. Dada a sua estupidez lançaram-se de imediato contra os "brancos reaccionários". Arrastaram na rua a Bandeira Nacional. Foi o rastilho. Começou, assim, o chamado 7 de Setembro.

Com os apelos da Rádio Clube de Moçambique enormes massas de brancos, pretos, indianos e mulatos acorreram às ruas debaixo dos olhares simpatizantes da PSP e de muitos militares.

Não, meus amigos, não se tratava de grupos de brancos revanchistas, conforme posteriormente os nossos "jornalistas de serviço", Mários Soares e afins nos disseram.

As fotos acima publicadas (uma pequena amostra) mostram que assim não foi. Mas ficou a versão oficial dos "vencedores" e dos "exemplares descolonizadores".

7 de Setembro de 1974 - Lourenço Marques



Faz hoje 33 anos que começou aquilo que foi a maior revolta popular contra o regime instaurado no 25 do 4.

Começou bem, com apoios de todos os lados - da extrema direita até a antigos dirigentes do PCP e da Frelimo.

Acabou mal por diversas razões, mas a principal das quais foi a falta de uma chefia unificada e capaz de tomar "as" decisões. Fez lembrar - quase a papel químico - a revolta das barricadas de Argel de Pierre Lagaillarde (Janeiro/Fevereiro de 1960).

No entanto nunca teria tido a dimensão que teve se antes não tivesse havido em Moçambique um "organizador colectivo" (no sentido das palavras de Lenine) que foi o semanário "Unidade".

Comecemos, pois, esta série de postais sobre o 7 de Setembro pela história do tal Jornal.

Estávamos em Fevereiro/Março de 1973. Marcelo continuava no poder a destruir toda uma história de séculos. Costa Gomes acabara de inviabilizar o comando único Angola - Moçambique (proposto por Kaúlza) e que tão bons resultados operacionais poderia ter tido. O organização do Congresso dos Combatentes estava no seu auge. Os militares conspiravam (cada vez mais às claras). À traição da Guiné estava a juntar-se a traição de Moçambique. Era visível (mesmo para os menos informados...).

Por outro lado - e como factor positivo - estavam concentrados em Moçambique um grande número de nacionalistas, alguns dos quais de elevadíssima qualidade. Também havia outros com larga experiência de luta militante. Luís Fernandes (jovem Capitão Para quedista, graduado no posto por feitos em combate) tinha atrás dele uma força militar nada despiciente. Também outros militares de maior patente nos demonstravam a sua simpatia, e também com comandos militares importantes. Havia gente, havia vontade, havia garra. E havia, acima de tudo, um Homem - Abel Tavares de Almeida. Jornalista e Monárquico Tradicionalista, tinha uma disponibilidade total e uma energia incomum.

Grande Amigo de Rodrigo Emílio (com quem assiduamente conviveu durante o tempo em que RE fez a sua comissão de serviço na Região Militar de Moçambique), e com quem muito se carteou, o Abel tinha não só o conhecimento profundo da "arte" jornalística e de direcção de um periódico, mas também o forte apoio do seu Mestre - Gonçalo Mesquitella (pai).

Analisada a situação reuniu-se um grande grupo de camaradas, para decidir o que fazer e como fazer.

Todos fomos de opinião que era necessário criar um periódico que pudesse difundir ideias e congregar "gente". Pensou-se de imediato num Mensal. Abel opôs-se dado o pouco tempo de que dispúnhamos. Era necessário um semanário. E tanto nos convenceu que acabámos por aceitar. Mas fazer um semanário (entre amadores) não é tarefa nada fácil. Congregámos, mesmo assim, cerca de uma vintena de pessoas dispostas a escrever periodicamente.

A escolha do Director e Editor não foi fácil. Na teoria do Abel teria de ser eu o Director. No entanto a prudência impunha outro nome. E esse nome foi o de Arnaldo Soares de Albergaria (da minha geração, também). Lá fiquei como Editor (com o meu primeiro nome e último apelido, tendo ao meio a inicial do apelido da minha mãe).

E começou a aventura. No primeiro número, surgido em Maio de 73, lá colaboraram uns 15 a 20 pessoas. Nada mal. O mesmo no número 2, 3, 4. A partir desse número os afazeres de todos começaram a pesar. A certa altura vimo-nos na contingência de sermos 3 ou 4 a escrever semanalmente 12 páginas de um jornal. E acreditem que não é fácil. Mas o Abel e o Augusto Vinhal (transmontano da velha guarda, com um raro domínio da língua portuguesa e uma capacidade de argumentação extraordinária) e eu próprio lá conseguimos continuar o projecto. (até o Rodrigo Emílio foi "obrigado" a colaborar no "Unidade").

Logo que o jornal saiu começou a má língua local a tentar perceber quem eram os malucos que assim avançavam. A partir do número do 10 de Junho de 1973 tudo se alterou. As vendas aumentaram exponencialmente. Vendíamos (a 2 escudos e cinquenta) cerca de 10/12 mil jornais semanalmente só em Lourenço Marques.

Muita gente se aproximou de nós. E começou, por volta de Julho/Agosto de 73, a grande organização das nossas gentes com a vinda de alguns conhecidos, mas muitos e muitos desconhecidos.

Entretanto a traição de muita gente continuava, e, cada vez mais às claras. Jorge Jardim (um dos dois grandes portugueses que Jaime Nogueira Pinto conheceu - sic)começava(?, ou continuava...) a sua aproximação às teses da Frelimo, pensando contar com o apoio de Kaunda e Banda, respectivamente na Zâmbia e no Malawi. Em meados de Setembro Jardim chega a exibir a algumas pessoas (entre as quais eu) um trapo que definiu como a futura bandeira de Moçambique. É claro que nesse dia tirei as minhas conclusões definitivas e mudei-me, com armas (em sentido figurativo, é claro) e bagagens, para Lisboa. Outro camarada, que teve um fim bem trágico, de seu nome Carlos Veríssimo Veiga, também teve os mesmos arrepios que eu. Mas lá continuou. E foi graças a ele que se pode ter conhecimento total das acções de Jorge Jardim nos dias do 7 de Setembro. (voltarei ao assunto.

Regressado à Metrópole continuei a acompanhar a organização surgida do Unidade. e Foi assim até ao 7 de Setembro.

NOTA FINAL: Abel Tavares de Almeida regressou depois a Lisboa - foi mais um "retornado". Continuou aqui a sua luta. Em finais de Maio de 1975 lá foi preso pelos copcães (aí eles acertaram...). Depois continuou a sua carreira jornalística na Renascença (onde foi colega do Rodrigo). Morreu vítima de acidente de viação. Contudo, como ele me afirmou, já se sentia morto depois do fim do seu (nosso) Portugal. Obrigado Abel por tudo o que fizeste e por tudo o que representaste.

quinta-feira, setembro 06, 2007

O Zé deles fazia falta? Só se for a eles...

porque aos lisboetas já vimos que não.

Mas eu passo a contar.

Como já referi costumo todos os dias passear a minha cadela no Jardim da Estrela. Até aí tudo bem. O que se passa é que o Jardim está sem luzes há vários meses (quase dois anos). Parece que é uma guerra entre a CML e a EDP. Mas quem se lixa é o utente.
Bom, para minimizar o problema o anterior executivo colocou uns projectores que davam ao Jardim um ar menos fantasmagórico e um pouco de segurança.

Contudo há dez dias (cumprem-se esta noite) deu tudo o berro. Ou seja está tudo às escuras.

Eu, contudo, mesmo às escuras, continuo a passear a cadelinha.

E quem é o Vereador responsável pelos Espaços Verdes? Pois claro, o Zézinho deles. E vocês julgam que ele já tomou alguma iniciativa, quanto mais não fosse - em nome da segurança pública, por exemplo - fechar os portões ao anoitecer?

Tirem o cavalinho da chuva que ele nada fez. Não dá espectáculo para os jornais, nem para os amigalhaços!

O que é que ele fez? Pois acabou com a Carreira de Tiro de Monsanto. Sim porque isso dá espectáculo!

Pois quem lá o colocou que o aguente. Eu que dentro de dias vou por uma providência cautelar para obrigar o Jardim a ser fechado ao anoitecer. Para ele saber o que é bom

Les deux etendards


Conheci Rebatet num dia de chuva do final dos anos 60 (Maio de 68 já tinha passado). Foi-me apresentado por Dominique de Roux. Visitei-o na sua modesta casa. Hoje sou incapaz de precisar sequer a zona de Paris onde residia. Males da idade.
O fito da minha visita. Conhecê-lo, é claro. Depois tentar perceber o que se tinha passado nos anos 30 e 40 em relação ao catolicismo na Europa. Depois falar com alguém que tinha passado mais de 100 dias com as grilhetas nos pés, aguardando o cumprimento de uma pena de morte. E que viu partir tantos e tantos nos longos corredores de Fresnes. Precisava perceber o que sentia um Homem nos últimos momentos de vida. Depois, ainda, perceber a sua conduta no julgamento e posterior condenação. Depois ainda falar do "Les deux etendarts".

Ou seja eu queria tudo. Inconsciência de um jovem. Tive direito a cerca de duas horas de visita. Para pouco deu. Mas bastante retive dessa conversa.

Estive face a face com um homem discreto, com as mãos disformes por um reumatismo galopante. Curioso: desejou logo saber notícias de Portugal e de Salazar. Muito pouco à vontade. Se era uma entrevista, perguntou-me de chofre. Que não, era um jovem que o queria conhecer, foi a minha resposta.

Falou-me, quase sem interrupções do ambiente literário francês de entre as guerras e da ocupação. Falou-me de Céline e da sua linguagem ferina em Sigmarigen, igual, ao fim e ao cabo, à sua linguagem literária. Admitiu ser um escritor maldito. Sim - referiu-me - eu fui partidário, até à última hora do nacional-socialismo, "e da espécie mais frenética". Sobre o seu comportamento após prisão disse-me apenas que os factos tinham sido empolados e que não foi - na totalidade - o cobarde que ainda hoje o querem fazer. Justificações nenhumas.

Falou-me das últimas horas/minutos de alguns seus companheiros de infortúnio. Dos cantos dos condenados à morte quando viam partir mais um a caminho do fuzilamento. Das visitas que recebiam de "jornalistas" e "outros convidados" para verem pobres Homens, com grilhetas nos pés, andando de perna aberta ("como um vulgar doente de gonorreia"). Era o gozo da altura...

Falou-me do sacrfício da sua geração, do que era a França entre as guerras. Perguntou-me se eu tinha lido "Os Escombros" . Como lhe disse que sim referiu-me que tudo o que lá estava era correcto. Que aquilo era a França. Com a corrupção, os comunistas e seus aliados (idiotas úteis), com a desordem. Com uma Igreja esclerosada. Com o fim das tradições da velha França. Mais me disse que um dia, no Rivarol, desafiou os seus adversários a confessar os seus erros, porque assim também ele o faria.

Sobre os Dois Estandartes revelou-me que foi graças à sua mulher que o livro não foi destruído. Estava quase pronto. Acabou-o na Prisão de Clairvaux, depois de pelo menos 2 anos de separação do manuscrito (tempo que demorou a dactilografar).

Só em 1949 conseguiu ler o seu livro (mais de 2.000 páginas dactilografadas). Foi publicado em 1952, ano da sua libertação.

Sobre a sua relação com o catolicismo, disse-me, lê o livro que vais perceber.E à guiza de resposta final apenas me disse: olha que o nacional - socialismo foi o maior perigo que a Igreja Católica viveu desde Roma. Pela primeira vez houve a possibilidade - bem real - da mudança de uma religião dos escravos por uma religião dos Homens. E isso "eles" bem perceberam.

Não tive oportunidade nem tempo de falar mais. Despediu-se. Nunca mais o vi. Mas já o reli. E recomendo-vos que o (re)leiam.

quarta-feira, setembro 05, 2007

E por falar em Rebatet



Ou fez - ou está a fazer - 35 anos que nos deixou fisicamente Lucien Rebatet. Sei-o porque na altura estava em Moçambique e recebi a informação de Dominique de Roux que nessa altura por lá andava. Situo a conversa em princípios de Setembro de 1972.

Rebatet foi um escritor famoso por duas obras: Os Escombros e as Duas Bandeiras.

Começou, contudo, na Action Française como crítico musical, sob o pseudónimo de François Vinneuil. Passa depois pelo Je suis partout, onde acolhe, com entusiasmo, as Bagatelles de Céline. Para além de um antisemitismo feroz, Rebatet contesta também o catolicismo, o comunismo e a democracia. Proclama-se fascista.

Após a derrota da França aproxima-se de Doriot, mas depressa regressa ao Je suis Partout.

Publica em 1942 Les Décombres (os escombros) onde designa como responsáveis pela derrota de 40 os judeus, os políticos e os militares. Atira-se mesmo aos mais débeis de Vichy.

O seu último artigo publicado na Pátria intitula-se "Fidelidade ao Nacional Socialismo". Foge então para Sigmaringen.

Condenado à morte em Novembro de 46, alguns meses depois vê comutada a sua sentença para trabalhos forçados. Na cadeia de Clairvaux acaba "o" seu Romance. Les deux etendards (as duas bandeiras), publicado pela Gallimard.

Libertado em 1952 escreve mais uns romances (sem a garra do anterior) Continua o seu combate no Rivarol e nos Valeurs actuelles. Até ao fim continuará "fascista".

A semicolcheia e o trombone


Estou para aqui (com uma invulgar insónia) tentando passar o tempo sem chatear quem vive comigo. Para isso coloquei uns auscultadores e ouço um pouco de música, ao mesmo tempo que bato nas teclas do computador.

Estou a ouvir uma obra (xaropada) de Dmitri Shostakovich. O compositor do regime soviético, o apaixonado por Estaline - que depois cobardemente atacou.

Relembro a frase lapidar de Lucien Rebatet que assim o definiu: “um alto funcionário da semicolcheia e do trombone”. E com isso definiu-o muito bem.

Mais um excelente trabalho do Bruno

Gabo a paciência - e orgulho-me da sua sapiência - do BOS que aqui nos deixa o começo de um trabalho de análise do mais novo trabalho do autor do Portugal - Os anos do Fim - Jaime Nogueira Pinto.

Aguardo, com expectativa a continuação. Leiam que vale a pena. Não comprei o livro. Não posso comprar tudo. Há prioridades para bolsas não muito abonadas - o meu caso.

Mas agora estou cá com umas vontades. Até para conferir se ele omitiu da sua bibliografia publicada Os anos do fim. Para mim seria o fim da picada...

Zangam-se as comadres...


Mão amiga fez-me chegar ao conhecimento um pedaço de texto saído da pena (e escrito visceralmente) de uma jovem Senhora (Ana Anes de seu nome).

A referida e bela Senhora(sim, porque apesar da provecta idade eu continuo um esteta, malgrado não ter a certeza de ser dos tais "colibris" que a senhora tanto aprecia e que recordo, com gosto, de alguns dos seus escritos mais ousados e inconformistas) é filha de José Anes, destacada figura (assumida) da Maçonaria Regular. E filha orgulhosa de o ser e com um amor ao progenitor que (sendo um sentimento cada vez mais raro) me apraz muito registar.

Mas não estamos a falar de sentimentos filiais. Estamos a falar de Sociedades "discretas". Das duas obediências maçónicas.

Aqui há uns tempos houve grande guerra na instituição. Zangaram-se, veio tudo? (parte, ínfima parte) ao de cima. Houve a guerra da Universidade Moderna. Houve a resposta. O caso Casa Pia tem, no meu entendimento, muito a ver com a vingança contra os do Bairro Alto.

Mas a coisa não fica por aqui. O caso Universidade Independente deve ter sido mais uma batalha da guerra e das vingançazinhas.

Até que em Maio sai na revista Sábado uma reportagem sobre os segredos da Maçonaria.

Li, com gosto, e achei que aquilo tinha sido feito com informações lá de dentro. Até porque conheci Jean Haupt, francês cá exilado e que nos anos 40 tinha tido acesso privilegiado aos arquivos dos maçons franceses.

Bem e o assunto para mim morreu, com a opinião que alguém se devia ter chateado muito com a reportagem.

Pois é a resposta de Ana Enes (publicada no seu blogue - entretanto extinto) que vem trazer ao de cima uma série de informações (essas sim) verdadeiramente importantes.

Deixo de lado (por uma questão de princípios já várias vezes assumido neste espaço) um despudorado ataque a um maçon (ex-maçon?) a raiar a má criação. Nada tenho a ver com estas situações e repudio o seu uso no combate de ideias ou outros combates. O "finíssimo" teor das palavras é demasiado ofensivo e se numa primeira fase poderá provocar um esboço de um sorriso, logo a seguir provoca dó pela falta de qualidade da autora. E nem é o assunto mais importante ou sequer relevante. Só revela ressabiamento.

Importante, importante, num artigo escrito a quente - e no próprio dia em que saiu a reportagem - e com consequências não medidas, é o facto de as revelações feitas sobre o GOL serem informações privilegiadas. De alguém que assitiu (suponho que no lar paterno) a muitas conversas e que detem vastos segredos lá da(s) chafarica(s).

De tudo ficámos a conhecer os nomes de mais uns jornalistas do Grande Oriente. Que foi criada uma Loja de jornalistas só para difundir as informações ou desinformações que lhes interessam, com nomes e tudo. Enfim, não sei qual terá sido a reação dos lojistas. Mas que o artigo não deu qualquer brado (em nenhum jornal ou revista, ou sequer partido político, lá isso é verdade).

Ou seja "eles" conseguiram "abafar" todo o conteúdo das palavras da menina. O que nos vale é que há internet e ficheiros "cache".

Ou seja mais uma história edificante

Sentiram-lhes a falta?

Nanja eu!

Fazem tanta falta como uma banda rock num enterro tradicional.

Pois falo dos políticos dos partidos (os aki há tótós, do postal anterior). Soube pelos jornais que se tinham acabado as férias deles e que agora eles voltavam para cá. A famosa "rentrée", que é fino dizer em francês.

Ou seja estivemos mais de um mês sem ter de os aturar e garanto-vos que eu - cá para mim - não senti qualquer falta deles.

E a crer nos resultados das últimas eleições para a CML a maioria também não.

terça-feira, setembro 04, 2007

O novo Aniki-Bobo




Roubado no Wehavekaosinthegraden.

Ou a nossa política no seu melhor

Cem anos da morte de Edvard Grieg



Amanhecer de Grieg. Da suite Peer Gynt, inspirada por Ibsen.

O melhor do romantismo musical com largas influências do que seria a música nacionalista.

Ainda a proposito de Araujo Correia





Amândio César foi quem me apresentou, pela primeira vez, a obra de Araújo Correia. Fiquei logo rendido. Talvez pela minha costela (também) transmontana, com grande vivência juvenil num mundo rural em que me embrenhava e bebia a sabedoria popular e tradicional de um mundo que já antevia em extinção. Como todos os jovens da época já lera Aquilino (que todos me diziam - lá no Liceu - que era o "contista" português). Depois de ler os Contos Bárbaros mudei logo de opinião e pude, com a veemência possível na época, contestar a minha Professora de Português. Foram "discussões" épicas. Mas tiveram bom resultado. Ela leu o duriense e posteriormente veio-me agradecer eu ter-lho apresentado.

Teve sempre um grande defensor - Bigotte Chorão. A ponto do Rodrigo Emílio me dizer bastantes vezes: tu e o Bigotte (salvaguardadas as devidas proporções entre um Mestre e um aprendiz) são incondicionais de Araújo Correia. Eu gosto, mas vocês exaltam-no.

Coube agora ao Dr. Bigotte Chorão prefaciar esta antologia. A colecção de Autores Portugueses da INCM é um dos grandes serviços públicos prestado à Cultura Portuguesa. Não sei quem é o responsável, mas quem quer que seja, Bem Haja.

O sangue e o solo

















na vida e obra de João de Araújo Correia - o Mestre do Conto em Portugal.

Esta é a minha homenagem a João de Araújo Correia, homem da Régua, homem da Medicina - verdadeiro João Semana - que tão bem soube interpretar o sentir e o pulsar de uma comunidade rural e tradicional dos começos do século XX: amor e lutas, relações vicinais, dramas humanos, riqueza, pobreza, humildade e ternura, abnegação e avareza, sublimação e miséria, honra e ignomínia... Tudo tendo por fundo os calços do Douro, Património Nacional antes de o ser mundial, e que foi erigido com o esforço gigantesco de gerações durienses, que desbravaram os matagais, saibraram, construiram os calços e alinharam e podaram milhões de bardos com as videiras que produzem o melhor vinho do Mundo. E sem se deixarem abater pelas pragas e acasos da vida rural - numa demonstração do real vitalismo do português da tradição e da Honra.

Darré teria aqui bastante material para meditar e enaltecer.

Tudo isto a propósito da edição da Imprensa Nacional Casa da Moeda do primeiro antologia de contos de Araújo Correia, em óptima hora publicada com prefácio de Bigotte Chorão - o grande entusiasta do médico duriense. São 27 euros, mas garanto-vos que é dinheiro muito bem empregue!

domingo, setembro 02, 2007

"Eles" estão desvairados...

Grande vai o desvario neste ocidente face ao recrudescimento da Rússia.

Pensando, com o fim da União Soviética, terem "normalizado" o urso oriental, os americanos e demais apêndices assistem, com Putin, ao renascimento da Fénix que parecia ter ardido para sempre.

Agora estão a acusar os russos de recuperarem os conceitos de Pátria e Nação, apoiados nos maiores vultos culturais russos, bem como numa Igreja de novo todo poderosa.

Os "naschis" novo movimento de Juventude estão em exponencial desenvolvimento. A Juventude volta a estar enquadrada e a chama renasce. Esta é a mensagem que Putin mandou aos ocidentais.

Aliás quando se enquadra a Juventude assite-se, sempre, a dois comportamentos paralelos: de um lado o sector mais patriótico e nacionalista do País avança de uma forma mais coordenada e rápida; do outro criam-se anti corpos por parte dos "avençados" e "burocratas" dos sistemas.

Este intróito tem a ver com o que se passou em Portugal com a criação dos diferentes grupos juvenis durante o Estado Novo. Tudo começa com a Acção Escolar Vanguarda, que surgida na Faculdade de Direito de Lisboa, cedo se espalha por todos os ambientes estudantis do Continente (de início) e logo a seguir pelo Ultramar. A camisa era verde; as calças pretas (do trajo académico). O detonador foi um desfile dos balilas italianos na Avenida da Liberdade. Seguiram-se diversas organizações, até que o Governo criou a Mocidade Portuguesa para enquadrar os demasiadamente impulsivos jovens da AEV.

Mas logo que o poder se apropriou da organização e afastados que foram os primeiros impulsionadores do movimento, tudo se esfumou. A machadada final foi dada por Galvão Teles e Marcelo Caetano.

Vale a pena transcrever o depoimento de Carlos Eduardo do Soveral. Diz tudo (de forma magistral, claro):

"Ou de uma juventude portentosa - que era na fase estado-novista, com Mocidade e tudo, o grande pecado que a sociedade portuguesa mais repreendia e não perdoava, sabendo particularmente mal aos que, velhos e novos, enquistados em lugares oficiais, exigiam a tempo e contratempo um sorvado, conformista, interesseiro sentido da medida, da oportunidade, da conveniência, da contra - evidência, da rábula. Os "já se vê" ou "bem vê" ou "como calcula" ou "compreende" ou "não pode deixar de ser"", "sempre foi assim", "tinha de ser", "é o mais acertado", "é prudente, sobretudo", "não nos percipitemos", "a experiência aconselha", e outros quejandos de pior ou melhor recorte ou feitura, que todos escondiam - significavam inércia e acomodaçãotornadas sistema e barreira intransponível, tinham nessa juventude o mais perigoso dos arietes e transtornos."

Olhem bem à volta e vejam como os acomodados ao sistema continuam a ter o mesmo tipo de actuação. Deve ser genético. Cada burocrata da nossa praça deve transmitir aos descendentes um novo gene: o do burguês acomodado (não faças ondas e olha pela vidinha).

E não haverá para aí um laboratório de investigação qualquer que modifique geneticamente esta gentinha? Seriam os BGM (os burocrats - e videirinhos - geneticamente modificados). Podiam patentear a descoberta e tudo, mas acho que só assim avançamos.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Quermesse e missa cantada...

Pois bem: quer messe e missa cantada e eu não tenho medo.

Disse isto Amândio César referindo-se a um mimoso "militar" que qual donzela afrontada por um piropo menos próprio, reagia assim a uma conferência realizada no Porto, na Casa do Infante, logo após a derrota militar da Indía Portuguesa.

Vou transcrever, na íntegra, as palavras de Carlos Eduardo de Soveral, que presidiu à cerimónia:

..."O Amândio era assim. O que culminantemente demonstrou ... em sessão atinente a Goa, por mim presidida, e onde não poderia ter sido mais frontal e verberante (era o orador da tarde) o libelo que produziu contra os militares, pela queda da Índia. E de militares cheia estava a nave quatrocentista. Nos dias imediatamente subsequentes, esbatida ou preterida, abafada, a lembrança das minhas palavras - que tampouco tinham sido macias - pela imponente, atribilária memória das suas, a reação que despertou na má consciência castrense foi ao ponto de não poucos admitirem ou alvitrarem que lhe fosse posto um pleito por injúria e difamação das Forças Armadas.
... (Amândio) ficando, continuando, nunca deixando de ser um franco-atirador, na berrante inadequação com os seus raros dons e pessoal valia"

Uns anos mais tarde comentando a revolta (principalmente de um mimoso militar - como lhe chamaria no pós 25 do 4 o nosso RE) ele comentava: se ele viesse ter comigo com um pingalim na mão para me dar umas bengaladas eu entendia, mas com um processo ... Que falta de tomates...

Como dizia o nosso muito querido Soveral: O Amândio era assim!

Servir o bezerro de ouro!



Li hoje as notícias referentes ao litígio entre a organização das corridas de avião no Grande Porto e as autoridades portuguesas de segurança sobre o pagamento do plano de emergência do referido acontecimento.

Tal facto fez-me meditar nalgumas situações que importam pensar sobre o "mundo civilizacional" que nos tem sido imposto e aceite (e bem aceite) por esta sociedade hedonista e individualista em que nos transformaram.

Refiro-me ao facto de a Cruz Vermelha Portuguesa e a Cáritas se terem recusado a participar na segurança da prova por não terem recebido o pilim que estavam à espera de receber dos "pategos americanos".

Ora vamos a ver. A Cáritas é uma organização católica que (segundo dizem) está ao serviço da comunidade. No seu portal em linha definem-se assim:

A Cáritas é “uma instância oficial da Igreja para a promoção da sua acção social” (Conferência Episcopal Portuguesa, 1997, Instrução Pastoral). ...

Em conjunto, regem-se pela doutrina social da Igreja e orientam a sua acção de acordo com os imperativos da solidariedade, dando resposta às situações mais graves de pobreza, exclusão social e situações de emergência em resultado de catástrofes naturais ou calamidade pública.

A Cáritas tem como objectivos a assistência em situações de emergência...

Bom tudo isto dito, seria de esperar que a Cáritas decidisse manter os treze "voluntários" encarregues de procurar e encaminhar crianças que eventualmente se perdessem dos pais durante a grande afluência de pessoal esperada para o Grande Porto. Bem isto pensei eu (que ainda sou muito optimista). Mas não. Como os americanos não deram os carcanhóis, nada feito. Ou seja treta e mais treta.

Agora a Cruz Vermelha Portuguesa. Não lhes deram os 17.000 euritos (três mil e quatrocentos contos) e não há nada para ninguém. E é uma instituição de utilidade pública... Aliás há diferenças marcantes entre a CVP e a Cruz Vermelha Espanhola, por exemplo.

Relembro apenas um facto. A maioria dos exilados portugueses em Espanha possuía muito parcos haveres. Houve situações de gravíssimas necessidades que se prendiam (inclusive) com a alimentação diária. Da saúde era melhor não falar. No entanto o Hospital da Cruz Vermelha Espanhola atendeu (gratuitamente) todos os portugueses que lá se deslocavam. E chegaram a prestar também assitência medicamentosa gratuita aos portugueses verdadeiramente mais necessitados. A filha menos velha do Rodrigo Emílio nasceu na maternidade da Cruz Roja Española. (um dia eu conto-vos a aventura do registo de nascimento da miúda no Consulado. Mais uma vez RE com o seu mau feitio e no seu melhor)

Cá em Portugal seria impensável que isso acontecesse.

Ou seja e como reflexão principal. Hoje o verdadeiro "voluntariado" desapareceu. É-se voluntário se houver massarocas. Caso contrário vão ao Totta!!!

No entanto nem sempre foi assim.

Há bem pouco tempo ser-se voluntário fazia parte da ética individual e societária. Havia um transpersonalismo latente em toda a sociedade e em que o espírito gregário e de inter - ajuda prevalecia sobre os interesses individuais. A pandemia do individualismo ainda não tinha feito tantas vítimas como hoje. "Eu coço-te as costas e tu coças as minhas" era um ditado popular bem enraizado nos portugueses. Os símios e outros animais "irracionais"(?) ainda o fazem. No entanto a sociedade, ou melhor dizendo, a súcia...dade criada pela gente que para aí manda acabou com isto. O que importa sou eu, a seguir eu e depois ainda eu...

O mesmo se passa por exemplo nas chamadas (impropriamente) corporações de Bombeiros Voluntários(?). Hoje são todas "voluntárias recebendo, é claro...". Nos idos de 60 eu fui bombeiro voluntário. Fazia parte da cidadania ajudar os outros. Nada recebia e até pagava do meu bolso as idas e voltas ao quartel, acessórios da farda, etc. Lembro-me um dia de, ao apagar um fogo num restolho, ter de ir a um café e pagar um quarto de leite para limpar os efeitos do fumo.

Ou seja estas organizações voluntárias e ONG, etc, hoje não passam de meros empregos em que em nome da solidariedade, etc., as pessoas organizam as suas vidinhas.

Mais claro não se pode ser: é a vitória total do personalismo sobre o transpersonalismo. Muita gente tem culpa. A começar pela Igreja. E isto apesar deste Papa ter vindo bem recentemente falar dos deveres do indivíduo face à comunidade em que vive. Mas esta boa doutrina papal ainda não chegou às Cáritas cá do burgo...

Os três pecados capitais da Europa

Individualismo; hedonismo; envelhecimento demográfico.

Resultado: corrupção da coesão étnica dos grupos humanos.

Acontece na Europa. Não acontece na Ásia e na África.

Ou seja: a Europa já era ...

Carlos Eduardo do Soveral

Nestes 6 meses de vida tive um episódio que me deixou muito triste. Apaguei um postal que tinha escrito sobre o enorme português que foi Carlos Eduardo de Soveral. Defini-o, tanto quanto me lembro com "o corpo de um atleta e a alma de um sábio". Contudo uma sua familiar contestou três afirmações minhas. De uma (sobre a sua actividade nos correios da África do Sul) errei e penitencio-me (a idade não perdoa e provoca-nos lapsos de memória bem aborrecidos), das outras duas (e como não assisti) limitei-me a relatar factos contados por outros (que reputo de verdadeiros).

Lamento que assim tenha sido. Peço desculpa á Família.

Voltarei a falar de Soveral. Falarei dele a propósito de mais coisas que quero relatar sobre Amândio César. Porque eu (pela minha idade e pelo que vivi) tenho o dever de memória para muitos e enormes portugueses com quem eu me cruzei e me ajudaram tanto na minha formação. Quanto mais não seja é esta a principal razão para eu continuar neste mundo da blogosfera.

Já faz 6 meses!

Sem eu me ter dado conta fez ontem 6 meses que entrei nesta coisa da blogosfera.

Quem havia de dizer. Eu que estava tão calminho no meu cantinho resolvi meter-me nesta aventura, de que, aliás, estou a gostar.

6 meses é muito pouco (face aos "camisas viejas" da blogosfera). Sou um neófito nesta minha nova faceta.

Já tive períodos de desânimo quando o nível a que me propus (não muito alto, aliás) começou a degradar-se e de forma bem visível. Reagi e melhorei um pouquinho.

A surpresa maior desta aventura é a do número de visitas que este espaço está a ter. E principalmente o "correio electrónico" que recebo das comunidades portuguesas de França, Bélgica, Holanda, Brasil, Argentina, Uruguai e Venezuela. Nunca pensei.

Bom para já vou continuar. O próximo passo é atingir um aninho. Para poder soprar as velas. Depois logo se vê.

Obrigado a todos que tem tido pachorra para me ler.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Grande postal do Nova Frente

Aqui pode ler um óptimo postal do Nova Frente. Recomendo-o vivamente.

Quero apenas dar uma achegas.

O Diário de Lisboa Juvenil, sob a orientação e responsabilidade de Mário Castrim (sim, ele próprio) tinha a partir dos anos 60 uma página destinada a jovens poetas e em que muitos e bons jovens publicaram as suas primeiras letras. Rodrigo Emílio foi um deles. Lembro-me que Castrim bem louvou o nosso Rodrigo pelo poema enviado. Era um trabalho de grande mérito o de Castrim. (aqui revelo um segredo: até eu - um dia - enviei para lá um poema que ele publicou. Foi o primeiro e último, visto eu ter de imediato reconhecido que não tinha qualquer qualidade para versejar. No entanto o Castrim gostou, nanja eu...)

Sobre a permanente disponibilidade do Rodrigo Emílio para reconhecer talentos e defender amizades, reconheço que o grande causador disso foi Amândio César que sempre nos demonstrou que o talento e a qualidade nada tinha a ver com as orientações ideológicas de cada um. Se o autor é bom, é bom. Ponto final. Era a sua máxima. Recordo, por exemplo, que um dia Amândio me mandou ler dois dos seus escritores favoritos - Brasillach e Curzio Malaparte. Um de direita, outro de esquerda. Fiquei fascinado. E ele disse-me que o importante era reconhecer o talento, o resto era acessório.

Outra achega importante. O caso Ary dos Santos. Ary era mais velho que o Rodrigo uma meia dúzia de anos. No entanto coincidiram poeticamente muitas e muitas vezes. David Mourão Ferreira considerava-os os "poetas da geração" (como ele tinha razão). Rodrigo tinha por Ary uma grande consideração (e vice versa). O nosso Rodrigo chegou-me a dizer que Ary era (em potência) um grande poeta "fascista". Apenas o disparate e a humilhação causada pela homofobia de um chefe de brigada da Judiciária (responsável pela brigada de costumes da PJ) e conhecido legionário o tinha levado para o campo comunista. No entanto a época não permitia brincadeiras e os homosexuais eram perseguidos e humilhados de forma acintosa e desnecessária. Foi o que se passou com Ary, que no fim da sua adolescência teve de sair de casa dos pais após umas peripécias lá na Judiciária.

A falta que faz o acento agudo...

A desgraça de Portugal é ao fim e ao cabo a falta de um acento agudo.

Somos um "país" de validos (sem acento) em vez de uma Pátria de válidos (com acento).