Na realidade, como nota o mesmo autor, Brasillach estava a entrar na curva definitiva da sua vida literária. E os seus romances vão-se adensando, vão-se tornando mais rigorosos, por vezes até mais melancólicos e mais tristes. O jovem que se entusiasmara a baralhar as pistas da acção e da inovação técnica ia consciencializando a sua vocação de romancista. Vejamos o caminho que seguiu a partir daqui.
O segundo romance da sua juventude consegue ser um belo depoimento sobre a adolescência e o tomar de consciência perante um mundo que se adivinha. Bem certo que a acção volteja em torno de Isabelle, Daniel e Laurent — os três jovens estudantes à procura de um destino que realize os seus sonhos num mundo que há poucos anos saiu de uma guerra —. Mas há também os belos tipos populares como o Pére La Frite, a Marie Lepeticorps — destino de uma mãe frustada — e o Rustique, velho professor. Há as grandes evasões ao parque de Montsouris e as conversas de Isabelle, a descoberta do rapaz que se parece com o Kid criado por Jackie Coogan (ídolo da época) e os dois rapazes que este descobre e que darão à acção um duplo figurativo: preencher a maternidade frustada de Lepetitcorps, levantar o problema da falsa filantropia e desaguar depois no crime num desmentido a todos os sonhos que alguém depositou neles. Nos dois colegas que acompanham Isabelle, Laurent é o homem de acção e nele se verá sem dificuldades o Brasillach desse tempo. Depois, uma certa melancolia a perturbar o fim da adolescência na réfuse de pense dans un Kid de vingt ans. É um romance feito de pequenos bocados poéticos, de pequenas evocações líricas, de análise bem marcada a um certo tempo, a um certo bairro, a uma certa população típica que não se esquece mais nem jamais passa da memória sentimental. Pode dizer-se que é o romance da juventude que ainda não entrou no baptismo de fogo. O quotidiano dá ainda margem para sonhos. A própria filosofia popular dá uma lógica coerente ao desengano da Lepetitcorps depois dos rapazinhos por ela protegidos serem identificados como criminosos. De nada valeram os trabalhos de Isabelle, de Laurent e de Daniel para os salvar da vala comum, da origem de miséria. Eles perdem-se de nós, como aliás se perdem todas as coisas da vida. Juntos seguem apenas Isabelle e Daniel, aquela com as rosas vermelhas mais belas que tinha Sandrine, a vendedeira do mercado das flores. Na noite parisiense fica apenas Laurent, que deita a moeda ao ar perguntando ao destino qual seria a sua sorte: cara ou coroa? Mas não tem coragem de abrir as mãos para saber qual seria a resposta do destino agora que estava sozinho diante da noite. É, como se vê, um romance de destinos juvenis misturados com uma população que hoje já não encontraremos. No ar das últimas páginas fervem já os fermentos da Frente Popular, a juventude vai tomar posição.
Antes disso, porém, creio oportuno marcar uma vez mais o interesse deste romance não só dentro da obra do seu autor, mas ainda na literatura francesa dessa época, desse momento. Sirvo-me da anotação de Pierre-Henri Simon na Histoire de la Littérature Française au XXème siècle, II volume, que abrange o período que decorre entre 1900 e 1950. Afirma o crítico francês: “En attendant, on comprend la méfiance des écrivains prolétariens pour les romans populistes écrits à l‘intention des lecteurs bourgeois et qui tendait trop souvent à confondre la bassesse des conditions avec la banalité des caractères. Aussi bien, les meilleurs romans populistes ont-ils été souvent écrits par des romanciers qui préfèraient le substantif à l‘épithète: d‘autentiques romanciers capables d‘atteindre et de rendre dans les êtres les plus simples la profondeur des sentiments humains dans le décor d‘une rue un parfum de poèsie. Tels le Van der Meersch de Marie, Fille des Flandres, et du Peché du Monde, le Jean Prévost des Frères Bouquinquant, et le Robert Brasillach de Le Marchand d‘Oiseaux (qui écrivait, disait-il ses "petits récits sur le Paris populaire un peu en marge de René Claire, c‘est-à-dire dans la nouvelle lumière du cinéma poètique")”. Como se vê, ao procurar-se a fonte ou a melhor documentação para romance populista em França, depara-se-nos ainda o nome de Robert Brasillach como um dos três escritores representativos desta corrente renovadora, ou, pelo menos, que tentava novos rumos para a ficção em prosa. É a melhor prova de autenticidade de um sentido romanesco em construção.
terça-feira, outubro 02, 2007
segunda-feira, outubro 01, 2007
Disse bem ou mal passado?
Ainda agora o homem vai para o poleiro e já vemos (pelos do costume) o lume que o vai cozinhar (a fogo lento) a ser preparado
Por outras palavras, Portugal no seu melhor!
Marcelo (o meu antigo colega do Liceu – já na altura tinha os tiques que hoje tem – um destes dias falo daqueles tempos do Pedro Nunes, das células liceais do Jovem Portugal e da AA – umas vezes Acção Académica, outras Anti-Apartheid, conforme o interlocutor e lhe convinha...) e Pacheco Pereira deram o mote (para o motim...).
Convenhamos que nada temos a ver com o que se passa “chez larangini”, mas a mim – como português – custa-me muito ver o pior da nossa faceta (a inveja, a mesquinhez, a..., ou seja tudo aquilo que condenávamos acerrimamente no marcelismo) a vir ao de cima.
Cozinharam o Lopes (Santana) e comeram-no bem passado. Vão agora – já começaram – cozinhar o Menezes. Vai ser fácil. Com o apoio da jornaleiragem, do marocas (calculem, gagá e continua na berra...), do Silva, dos expressamente bidelberguianos, dos tipos do bairro alto, vai ser canja.
Não haja dúvidas o regime no seu melhor! Vamo-nos divertir à grande e à ... portuguesa. Como se dizia antigamente: estamos à beira do abismo, mas demos um passo em frente!
Tudo isto para dizer que (a curto prazo) vai haver (re) arranjos no espectro politico partidário deste país.
É uma oportunidade – de ouro – para um maior protagonismo dos nacionalistas em Portugal.
Assim haja cabeça, ideias, organização e disciplina! E pensem (ou obriguem-nos a pensar) antes de agir!
Por outras palavras, Portugal no seu melhor!
Marcelo (o meu antigo colega do Liceu – já na altura tinha os tiques que hoje tem – um destes dias falo daqueles tempos do Pedro Nunes, das células liceais do Jovem Portugal e da AA – umas vezes Acção Académica, outras Anti-Apartheid, conforme o interlocutor e lhe convinha...) e Pacheco Pereira deram o mote (para o motim...).
Convenhamos que nada temos a ver com o que se passa “chez larangini”, mas a mim – como português – custa-me muito ver o pior da nossa faceta (a inveja, a mesquinhez, a..., ou seja tudo aquilo que condenávamos acerrimamente no marcelismo) a vir ao de cima.
Cozinharam o Lopes (Santana) e comeram-no bem passado. Vão agora – já começaram – cozinhar o Menezes. Vai ser fácil. Com o apoio da jornaleiragem, do marocas (calculem, gagá e continua na berra...), do Silva, dos expressamente bidelberguianos, dos tipos do bairro alto, vai ser canja.
Não haja dúvidas o regime no seu melhor! Vamo-nos divertir à grande e à ... portuguesa. Como se dizia antigamente: estamos à beira do abismo, mas demos um passo em frente!
Tudo isto para dizer que (a curto prazo) vai haver (re) arranjos no espectro politico partidário deste país.
É uma oportunidade – de ouro – para um maior protagonismo dos nacionalistas em Portugal.
Assim haja cabeça, ideias, organização e disciplina! E pensem (ou obriguem-nos a pensar) antes de agir!
BRASILLACH E A SUA OBRA – 2/8
A geração de Robert Brasillach — ou aquela a que ele está ligado — comporta nomes que hoje ocupam lugar de relevo nas letras e no pensamento francês. Mencionemos três desses nomes que aparecem ligados, uma só vez, num romance que seria a estreia de todos: Fulgur; são eles Thierry Maulnier, Roger Vaillant, Paul Gadenne. Como nasceu um romance feito por quatro autores? Nasceu no intervalo ou na passagem de Louis le Grand para a École Normale e tratava-se de uma paródia ao romance de aventuras, como Brasillach declararia mais tarde: “Je crois que l‘idée nous en était venue à lire les livraisons de Fantômas que notre camarade Roger Vaillant nous avait apportées”.
De qualquer forma, as páginas de Brasillach escritas aos 19 anos têm interesse, bem como as dos outros colaboradores. Um dos Fulgur escreveu estas palavras comentando a notícia que outro camarada dera do nascimento do “grand roman d‘aventures, de police et d‘epopée”: “Il serait amusant pourtant de reconnaître dans l‘humour noir de Thierry Maulnier de vingt ans quelque chose de la gravité du Thierry Maulnier d‘aujourd‘hui dans le surréalisme prémédité du jeune Roger Vaillant, quelque chose du conformisme révolutionaire du Roger Vaillant marxiste, dans la misanthropie exagérée du jeune Paul Gadenne, quelque chose de la mélancolie de l‘auteur de Siloé dans la fantaisie anarchique du Robert Brasillach de dix-neuf ans, quelque chose de l‘ironie et da la liberté du vrai Robert Brasillach. Mais notre époque a-t-elle le temps de s‘amuser?”.
De qualquer forma, o romance chegou a ver a luz da publicidade! E durante o ano de 1927, os leitores de La Tribune de l‘Ivone puderam seguir aquelas peripécias que, redigidas por muitos, eram assinadas por um só: Jean Servière. Aqui começam os primeiros passos de romancista daquele Brasillach que se apresentaria por sua própria mão no Le Voleur d‘Étincelles cinco anos depois. O autor de estudos clássicos fizera a sua aparição um ano antes com oVirgile. Lado a lado — o clássico e o moderno — podiam viver uma vida de entendimentos sem brigas e sem desconfianças. É aquilo que Brasillach dava no seu primeiro romance era a vida da sua juventude, que para ele era o seu tempo; e aquilo que daria em Virgílio era também a vida do poeta romano naquilo que ela poderia interessar às nossas inquietações e aos nossos debates de ideias de homens de entre duas guerras.
A primeira fase de romancista de Robert Brasillach é a fase do aprendizato, tanto mais resultante quanto é certo que Brasillach punha naquilo que escrevia toda a febre da sua juventude — uma juventude que descobria no quotidiano os mais belos recantos de Paris ou do seu torrão natal. Mas a trama seguirá um curso que se verificará tanto no L´Enfant de la Nuit como no romance que se lhe segue. Bernard de Fallois notou-o com rara perspicácia quando afirmava depois de dizer anteriormente que os títulos dos seus livros conviriam melhor a títulos de poemas. “Cet épisode central, autour duquel s‘ordonnent et s‘enlancent les fils du destin, est repris de façon identique dans tous les romans de Brasillach, à l‘exception des petits récits parisiens du début, L‘Enfant de la Nuit et Le Marchand d‘Oiseaux”.
De qualquer forma, as páginas de Brasillach escritas aos 19 anos têm interesse, bem como as dos outros colaboradores. Um dos Fulgur escreveu estas palavras comentando a notícia que outro camarada dera do nascimento do “grand roman d‘aventures, de police et d‘epopée”: “Il serait amusant pourtant de reconnaître dans l‘humour noir de Thierry Maulnier de vingt ans quelque chose de la gravité du Thierry Maulnier d‘aujourd‘hui dans le surréalisme prémédité du jeune Roger Vaillant, quelque chose du conformisme révolutionaire du Roger Vaillant marxiste, dans la misanthropie exagérée du jeune Paul Gadenne, quelque chose de la mélancolie de l‘auteur de Siloé dans la fantaisie anarchique du Robert Brasillach de dix-neuf ans, quelque chose de l‘ironie et da la liberté du vrai Robert Brasillach. Mais notre époque a-t-elle le temps de s‘amuser?”.
De qualquer forma, o romance chegou a ver a luz da publicidade! E durante o ano de 1927, os leitores de La Tribune de l‘Ivone puderam seguir aquelas peripécias que, redigidas por muitos, eram assinadas por um só: Jean Servière. Aqui começam os primeiros passos de romancista daquele Brasillach que se apresentaria por sua própria mão no Le Voleur d‘Étincelles cinco anos depois. O autor de estudos clássicos fizera a sua aparição um ano antes com oVirgile. Lado a lado — o clássico e o moderno — podiam viver uma vida de entendimentos sem brigas e sem desconfianças. É aquilo que Brasillach dava no seu primeiro romance era a vida da sua juventude, que para ele era o seu tempo; e aquilo que daria em Virgílio era também a vida do poeta romano naquilo que ela poderia interessar às nossas inquietações e aos nossos debates de ideias de homens de entre duas guerras.
A primeira fase de romancista de Robert Brasillach é a fase do aprendizato, tanto mais resultante quanto é certo que Brasillach punha naquilo que escrevia toda a febre da sua juventude — uma juventude que descobria no quotidiano os mais belos recantos de Paris ou do seu torrão natal. Mas a trama seguirá um curso que se verificará tanto no L´Enfant de la Nuit como no romance que se lhe segue. Bernard de Fallois notou-o com rara perspicácia quando afirmava depois de dizer anteriormente que os títulos dos seus livros conviriam melhor a títulos de poemas. “Cet épisode central, autour duquel s‘ordonnent et s‘enlancent les fils du destin, est repris de façon identique dans tous les romans de Brasillach, à l‘exception des petits récits parisiens du début, L‘Enfant de la Nuit et Le Marchand d‘Oiseaux”.
BRASILLACH E A SUA OBRA – 1/8
Henry Clouard na sua Histoire de la Littérature Française — Du symbolisme à nous jours, II volume, no qual estuda os movimentos literários de França de 1915 a 1940 — tem este parecer sobre Robert Brasillach que me parece oportuno transcrever pois que, embora discutível pela severidade, tem um raro poder de sintetização de uma obra longa e diversa:
“Les dons de Robert Brasillach furent tout d‘abord d‘un chroniquer fin, curieux, ingénieux et frais; ils triomphent dans les mémoires qu‘il a laissés de sa jeunesse d‘étudiant et d‘écrivain débutant, cabri gambadant à travers Paris sur lequel régnait Ludmilla Pitoëff (Notre Avant-Guerre,1941). Ils se sont durcis vers la fin, dans une presse controlée par les Allemands: alors se sentit chez Brasillach une force surprenante et mal employée d‘écrivan de combat. Il ne fallait pourtant pas condamner à mort ce garçon d‘avenir. Quels sont ceux que son visage ne revient pas obséder? Il était en progrès dans le roman, de Voleur d‘Etincelles à Comme le Temps Passe (1937), quoique n‘arrivant pas encore à se dégager de la chronique ou du tohu-bohu d‘intentions. S´il avait la poésie trop facile et si ses poèmes de prison n‘en font qu‘un faux Chénier, qu‘il a été brillant en critique! Certes, Présence de Virgile (1931), Portraits (1935), Corneille (1938), veulent trop tirer l‘oeil et abusent de l‘anachromisme un étonnant brio, mais ses recueils de chroniques littéraires Les Quatre Jeudis, montent au niveau de ses recueils de souvenirs. Une culture extraordinairement nuancée les porte, une curiosité les anime qui a l‘ivresse du départ en vacances. Il ne leur manque qu‘une parfait maturité. Et tout cela est a redire des études sur Les Animateurs de Théatre (1936)”.
Nem tudo será de aceitar sem discussão neste juízo que, no entanto, se me afigura isento de paixões. Mas ocorre-me dizer que o autor em questão — ainda que prestando justiça à presença de Brasillach na literatura francesa dos nossos dias — teve em conta uma obra terminada quando Brasillach foi obrigado a terminá-la sem revisões de maior diante de um pelotão de execução. E isso torna as coisas bastante diferentes se tivermos em conta que o inacabado ou o não revisto nasceram fora do escritor, mas atingiram-no e à sua obra passada. De qualquer forma, serve para revelar o interesse — não despido de riscos — perante um escritor maldito, isto para não me servir do denominador comum de Saint-Paulien. Devo acrescentar ainda que me pareceu curta a citação à obra do romancista, que na bibliografia de Robert Brasillach ocupa um lugar destacado e que mereceu outras referências mais largas exactamente por causa da originalidade que a sua obra romanesca comportava. Essa obra começara em 1932 com Voleur d´Étincelles e prolongar-se-ia, seguindo o curso da vida e da história do seu tempo, até Six Heures à Perdre, romance póstumo que apareceu em 1953. Neste espaço de tempo, Robert Brasillach escreveu mais cinco romances que são tão importantes na definição de uma arte literária como ainda num debate de ideias a que o autor nunca se recusou. Eis porque a quinze anos de distância do seu fuzilamento venho ocupar-me dessa obra de romancista, certo de que ela é quase desconhecida entre nós, se exceptuarmos o círculo de amigos portugueses que o leram, o admiraram e que por isso seguiram o seu calvário até ao fim. O grande público nacional deu — se é que deu — pela sua Histoire de la Guerre d‘Espagne escrita de parceria com Maurice Bardèche e traduzida por Ferreira da Costa; ou então, pelo seu romance Comme le Temps Passe aparecido há uma escassa meia dúzia de meses na versão nem sempre brilhante de Paulo Santa Rita. Ora, o que interessa é falar-se verdade, apenas verdade, sobre este romancista, pois isso basta também para o Brasillach crítico e literário, estudioso dos clássicos ou historiador do cinema, poeta ou jornalista. Em todos estes sectores ele se realizou e cada um deles pode dar margem a ensaio substancial, tanto mais necessário quanto é certo que nos abafam debaixo de infravalores — atitude muito de ter em consideração quando se usa e abusa da espantosa incultura das gerações mais jovens —. Ora, Brasillach foi um escritor para a juventude. Ele próprio morreu jovem após uma luta que sustentou sem desfalecimentos contra as forças secretas ou não secretas, mas sempre revolucionárias, que o haviam de levar até ao poste da execução, forma única de calar a sua voz, o seu exemplo, a sua inteligência, a sua arte, a sua integridade moral. E vai já sendo tempo de reagirmos: sobretudo contra as sistemáticas e bem dirigidas campanhas de silêncio, cujo objectivo é tão claro que nem vale a pena mencioná-lo.
“Les dons de Robert Brasillach furent tout d‘abord d‘un chroniquer fin, curieux, ingénieux et frais; ils triomphent dans les mémoires qu‘il a laissés de sa jeunesse d‘étudiant et d‘écrivain débutant, cabri gambadant à travers Paris sur lequel régnait Ludmilla Pitoëff (Notre Avant-Guerre,1941). Ils se sont durcis vers la fin, dans une presse controlée par les Allemands: alors se sentit chez Brasillach une force surprenante et mal employée d‘écrivan de combat. Il ne fallait pourtant pas condamner à mort ce garçon d‘avenir. Quels sont ceux que son visage ne revient pas obséder? Il était en progrès dans le roman, de Voleur d‘Etincelles à Comme le Temps Passe (1937), quoique n‘arrivant pas encore à se dégager de la chronique ou du tohu-bohu d‘intentions. S´il avait la poésie trop facile et si ses poèmes de prison n‘en font qu‘un faux Chénier, qu‘il a été brillant en critique! Certes, Présence de Virgile (1931), Portraits (1935), Corneille (1938), veulent trop tirer l‘oeil et abusent de l‘anachromisme un étonnant brio, mais ses recueils de chroniques littéraires Les Quatre Jeudis, montent au niveau de ses recueils de souvenirs. Une culture extraordinairement nuancée les porte, une curiosité les anime qui a l‘ivresse du départ en vacances. Il ne leur manque qu‘une parfait maturité. Et tout cela est a redire des études sur Les Animateurs de Théatre (1936)”.
Nem tudo será de aceitar sem discussão neste juízo que, no entanto, se me afigura isento de paixões. Mas ocorre-me dizer que o autor em questão — ainda que prestando justiça à presença de Brasillach na literatura francesa dos nossos dias — teve em conta uma obra terminada quando Brasillach foi obrigado a terminá-la sem revisões de maior diante de um pelotão de execução. E isso torna as coisas bastante diferentes se tivermos em conta que o inacabado ou o não revisto nasceram fora do escritor, mas atingiram-no e à sua obra passada. De qualquer forma, serve para revelar o interesse — não despido de riscos — perante um escritor maldito, isto para não me servir do denominador comum de Saint-Paulien. Devo acrescentar ainda que me pareceu curta a citação à obra do romancista, que na bibliografia de Robert Brasillach ocupa um lugar destacado e que mereceu outras referências mais largas exactamente por causa da originalidade que a sua obra romanesca comportava. Essa obra começara em 1932 com Voleur d´Étincelles e prolongar-se-ia, seguindo o curso da vida e da história do seu tempo, até Six Heures à Perdre, romance póstumo que apareceu em 1953. Neste espaço de tempo, Robert Brasillach escreveu mais cinco romances que são tão importantes na definição de uma arte literária como ainda num debate de ideias a que o autor nunca se recusou. Eis porque a quinze anos de distância do seu fuzilamento venho ocupar-me dessa obra de romancista, certo de que ela é quase desconhecida entre nós, se exceptuarmos o círculo de amigos portugueses que o leram, o admiraram e que por isso seguiram o seu calvário até ao fim. O grande público nacional deu — se é que deu — pela sua Histoire de la Guerre d‘Espagne escrita de parceria com Maurice Bardèche e traduzida por Ferreira da Costa; ou então, pelo seu romance Comme le Temps Passe aparecido há uma escassa meia dúzia de meses na versão nem sempre brilhante de Paulo Santa Rita. Ora, o que interessa é falar-se verdade, apenas verdade, sobre este romancista, pois isso basta também para o Brasillach crítico e literário, estudioso dos clássicos ou historiador do cinema, poeta ou jornalista. Em todos estes sectores ele se realizou e cada um deles pode dar margem a ensaio substancial, tanto mais necessário quanto é certo que nos abafam debaixo de infravalores — atitude muito de ter em consideração quando se usa e abusa da espantosa incultura das gerações mais jovens —. Ora, Brasillach foi um escritor para a juventude. Ele próprio morreu jovem após uma luta que sustentou sem desfalecimentos contra as forças secretas ou não secretas, mas sempre revolucionárias, que o haviam de levar até ao poste da execução, forma única de calar a sua voz, o seu exemplo, a sua inteligência, a sua arte, a sua integridade moral. E vai já sendo tempo de reagirmos: sobretudo contra as sistemáticas e bem dirigidas campanhas de silêncio, cujo objectivo é tão claro que nem vale a pena mencioná-lo.
sábado, setembro 29, 2007
Ainda as atitudes “descabeladas”
“O que se escreve sobre nós nunca é justo: ou é de um amigo ou de um inimigo”. Este brilhante aforismo foi escrito um dia por António Ferro (quem mais?).
E veio-me este aforismo à cabeça quando ontem à noite recebi, da África do Sul, um “mail” de uma Amiga “faccetta nera, bella angolana” que sempre se bateu (como poucas) por um Portugal do Minho a Timor e espalhado pelo Mundo, através da nossa diáspora.
Pois a minha Amiga - horrorizada – falava-me no ataque ao cemitério de Lisboa. Chamava-me a atenção para um artigo que eu tinha escrito – e publicado na África do Sul – sobre a destruição de um cemitério militar (na RAS e feito pelas entidades oficiais) em que estavam a dormir o sono dos justos uma série de combatentes portugueses pretos, mestiços e brancos, mortos ao serviço da Causa.
Pedia-me a mesma indignação que eu tinha exposto nesse artigo. Exigia-mo, digamos em linguagem mais correcta. E pedia-me “a mesma e justa indignação, que originou o teu brilhante artigo (sic)”. Ou seja transformou um pequeno texto meu num “brilhante artigo” (coisas de Amiga).
Mas ela tem toda a razão sobre o que está subjacente a tudo isto! E que o que eu já tinha escrito neste blogue e no dia de ontem era pouco claro e só destinado a “iniciados”.
Nós os mais velhos temos o direito e a obrigação de chamar os bois pelos nomes. Pois aqui vai!
Sou Nacionalista assumido (com muita, alguma e quase nenhuma militância ao longo dessas décadas) há mais de 45 anos (cumpridos em Março). Já dei provas de não ter medo de dizer aquilo que penso (e de actuar em conformidade). E o que penso é que se a Lei não castigar devidamente os “energúmenos”, deve ser criado um mecanismo legal que imponha uma “reeducação” dessa gente. Nem que sejam os campos de reeducação iguais aos da Frelimo ou do Mpla!
Não há – em Portugal – qualquer problema judaico! Isto é importante ser dito! Até a porta voz deles é bem fraquinha, coitada! Não se pode confundir uma oposição a uma politica de um Estado – Israel, no caso – com posturas contra religiões ou outras. Podem dizer-me que os sionistas isto e aquilo, etc, mas a mim isso não me interessa no que diz respeito a Portugal. Se eles mandam no mundo, nada do que aqui se diga ou faça vai mudar seja o que for. Demos tempo ao tempo. A emergência das duas futuras grandes potências mundiais – a China e a Índia - vai menorizar o poder norte americano, e concomitantemente o poder sionista. (vai ser uma implosão, como a da antiga URSS) . Vai dar luta, mas neste momento já é irreversível.
Sobre o significado de um cemitério quero apenas dizer que desde a maior antiguidade conhecida o culto dos mortos – nas sociedades indo – europeias, e não só – teve sempre um lugar de destaque. São as raízes genéticas e culturais que lá se encontram. Ou seja tudo aquilo que nós somos e que transmitiremos aos nossos. Não se percebe, nem se aceita, pois uma atitude destas. Como não se aceitaria nunca que um grupo de energúmenos dos berloquistas atacasse um cemitério militar português! Seriam também por mim chamados “energúmenos”! E se calhar não me ficaria pelas palavras ...
Convém também esclarecer que “rituais de iniciação” dos mais jovens tem também uma função pedagógica. Veja-se qualquer ritual de iniciação nas terras transmontanas ou em qualquer tribo africana. Não é criando os disparates de “praxes” importadas que se educam os futuros militantes. Só dão ideias completamente idiotas a jovens que ainda não tem grande capacidade de avaliação das suas atitudes (notem que eu em muito jovem também fiz muitos disparates, mas tive sempre quem me enquadrasse, me corrigisse e me punisse, quando o caso assim o exigia)!
Outra coisa, sou Nacionalista – acima de tudo Nacionalista Português – e não gosto muito de “importações globalizantes” de outros países europeus ou não! Não, não sou inglês, não, não sou russo! E olhem que tive várias conversas com destacados militantes skins desses países, que muito bem aceitaram a minha postura.
Não queiram, pois, ser mais papistas que o Papa!
Tenham juízo, não copiem, sejam Portugueses e batam-se por Portugal (como alguns - muitos - dos vossos têm feito ao longo destas últimas décadas)!
Nota: o mesmo epíteto de “energúmenos” se aplica, por exemplo, aos responsáveis do Cemitério Alemão de Lisboa que desrespeitaram o sono dos mortos com “censuras” e “ocultações” do que estava escrito nas lajes das campas! Como vêem sou eclético quando chamo nomes aos bois!
E veio-me este aforismo à cabeça quando ontem à noite recebi, da África do Sul, um “mail” de uma Amiga “faccetta nera, bella angolana” que sempre se bateu (como poucas) por um Portugal do Minho a Timor e espalhado pelo Mundo, através da nossa diáspora.
Pois a minha Amiga - horrorizada – falava-me no ataque ao cemitério de Lisboa. Chamava-me a atenção para um artigo que eu tinha escrito – e publicado na África do Sul – sobre a destruição de um cemitério militar (na RAS e feito pelas entidades oficiais) em que estavam a dormir o sono dos justos uma série de combatentes portugueses pretos, mestiços e brancos, mortos ao serviço da Causa.
Pedia-me a mesma indignação que eu tinha exposto nesse artigo. Exigia-mo, digamos em linguagem mais correcta. E pedia-me “a mesma e justa indignação, que originou o teu brilhante artigo (sic)”. Ou seja transformou um pequeno texto meu num “brilhante artigo” (coisas de Amiga).
Mas ela tem toda a razão sobre o que está subjacente a tudo isto! E que o que eu já tinha escrito neste blogue e no dia de ontem era pouco claro e só destinado a “iniciados”.
Nós os mais velhos temos o direito e a obrigação de chamar os bois pelos nomes. Pois aqui vai!
Sou Nacionalista assumido (com muita, alguma e quase nenhuma militância ao longo dessas décadas) há mais de 45 anos (cumpridos em Março). Já dei provas de não ter medo de dizer aquilo que penso (e de actuar em conformidade). E o que penso é que se a Lei não castigar devidamente os “energúmenos”, deve ser criado um mecanismo legal que imponha uma “reeducação” dessa gente. Nem que sejam os campos de reeducação iguais aos da Frelimo ou do Mpla!
Não há – em Portugal – qualquer problema judaico! Isto é importante ser dito! Até a porta voz deles é bem fraquinha, coitada! Não se pode confundir uma oposição a uma politica de um Estado – Israel, no caso – com posturas contra religiões ou outras. Podem dizer-me que os sionistas isto e aquilo, etc, mas a mim isso não me interessa no que diz respeito a Portugal. Se eles mandam no mundo, nada do que aqui se diga ou faça vai mudar seja o que for. Demos tempo ao tempo. A emergência das duas futuras grandes potências mundiais – a China e a Índia - vai menorizar o poder norte americano, e concomitantemente o poder sionista. (vai ser uma implosão, como a da antiga URSS) . Vai dar luta, mas neste momento já é irreversível.
Sobre o significado de um cemitério quero apenas dizer que desde a maior antiguidade conhecida o culto dos mortos – nas sociedades indo – europeias, e não só – teve sempre um lugar de destaque. São as raízes genéticas e culturais que lá se encontram. Ou seja tudo aquilo que nós somos e que transmitiremos aos nossos. Não se percebe, nem se aceita, pois uma atitude destas. Como não se aceitaria nunca que um grupo de energúmenos dos berloquistas atacasse um cemitério militar português! Seriam também por mim chamados “energúmenos”! E se calhar não me ficaria pelas palavras ...
Convém também esclarecer que “rituais de iniciação” dos mais jovens tem também uma função pedagógica. Veja-se qualquer ritual de iniciação nas terras transmontanas ou em qualquer tribo africana. Não é criando os disparates de “praxes” importadas que se educam os futuros militantes. Só dão ideias completamente idiotas a jovens que ainda não tem grande capacidade de avaliação das suas atitudes (notem que eu em muito jovem também fiz muitos disparates, mas tive sempre quem me enquadrasse, me corrigisse e me punisse, quando o caso assim o exigia)!
Outra coisa, sou Nacionalista – acima de tudo Nacionalista Português – e não gosto muito de “importações globalizantes” de outros países europeus ou não! Não, não sou inglês, não, não sou russo! E olhem que tive várias conversas com destacados militantes skins desses países, que muito bem aceitaram a minha postura.
Não queiram, pois, ser mais papistas que o Papa!
Tenham juízo, não copiem, sejam Portugueses e batam-se por Portugal (como alguns - muitos - dos vossos têm feito ao longo destas últimas décadas)!
Nota: o mesmo epíteto de “energúmenos” se aplica, por exemplo, aos responsáveis do Cemitério Alemão de Lisboa que desrespeitaram o sono dos mortos com “censuras” e “ocultações” do que estava escrito nas lajes das campas! Como vêem sou eclético quando chamo nomes aos bois!
sexta-feira, setembro 28, 2007
A vida de um “blogueador” é tramada. – Ou a “Floração Juvenil do Jovem Brasillach”

Um tipo começa a falar de um assunto e as ideias saltam, saltam. Queremos colocar alguma ordem no assunto e não conseguimos. É tramado! Principalmente para mim que sou um pouco (para não dizer muito) desorganizado. Eu bem me tento disciplinar, mas estou – uma vez mais – a ver que não consigo.
De tudo o que falei verifiquei que devia ter dito mais, pela importância do assunto.
E o assunto aqui é Robert Brasillach. E são muitos dos meus Mestres.
Como poderia deixar de fora Amândio César. Impensável. Foi ele que me deu todas as oportunidades na vida para que eu escrevinhasse alguma coisita. Foi ele que me incentivou. Foi ele que me ensinou. Foi mesmo – e afirmo-o com orgulho – um segundo Pai! E logo eu que tive a sorte de ter tido um verdadeiramente excelente Pai! (cujo único “pecado” foi ter partido desta vida demasiadamente cedo)
E eu, meus caros, aprendi com Cervantes que o maior crime que se pode cometer é o da ingratidão. E esse crime não tem perdão! (e nem sequer está tipificado no Código Penal – nem sequer posso ser preso pela Judite. Não posso cumprir prisão). Mas mesmo assim não o quero cometer.
Escolhi um texto de Amândio sobre a obra de Brasillach. Sobre os seus 7 romances. É grande, é enorme (no ponto de vista de um blogue) mas é essencial para iniciar muitos jovens na obra do mártir de Fresnes.
Vou dividi-lo por diversos postais. Caso contrário seria uma seca horrível, apesar da elevadíssima qualidade do texto. Tinha que ter uma opção, foi esta que prevaleceu. O texto é essencial e tenho de o partir aos pedaços (oito mais precisamente). Peço desculpas antecipadas.
Nota: Eu sei que devia deixar este assunto para relembrar o 6 de Fevereiro. Mas há tanta coisa ainda a dizer que posso impunemente publicar - desde já - tudo isto!
De tudo o que falei verifiquei que devia ter dito mais, pela importância do assunto.
E o assunto aqui é Robert Brasillach. E são muitos dos meus Mestres.
Como poderia deixar de fora Amândio César. Impensável. Foi ele que me deu todas as oportunidades na vida para que eu escrevinhasse alguma coisita. Foi ele que me incentivou. Foi ele que me ensinou. Foi mesmo – e afirmo-o com orgulho – um segundo Pai! E logo eu que tive a sorte de ter tido um verdadeiramente excelente Pai! (cujo único “pecado” foi ter partido desta vida demasiadamente cedo)
E eu, meus caros, aprendi com Cervantes que o maior crime que se pode cometer é o da ingratidão. E esse crime não tem perdão! (e nem sequer está tipificado no Código Penal – nem sequer posso ser preso pela Judite. Não posso cumprir prisão). Mas mesmo assim não o quero cometer.
Escolhi um texto de Amândio sobre a obra de Brasillach. Sobre os seus 7 romances. É grande, é enorme (no ponto de vista de um blogue) mas é essencial para iniciar muitos jovens na obra do mártir de Fresnes.
Vou dividi-lo por diversos postais. Caso contrário seria uma seca horrível, apesar da elevadíssima qualidade do texto. Tinha que ter uma opção, foi esta que prevaleceu. O texto é essencial e tenho de o partir aos pedaços (oito mais precisamente). Peço desculpas antecipadas.
Nota: Eu sei que devia deixar este assunto para relembrar o 6 de Fevereiro. Mas há tanta coisa ainda a dizer que posso impunemente publicar - desde já - tudo isto!
E por falar em Goulart e Brasillach

Isto volta a ser como a história das cerejas... Nas minhas buscas de escritos do Goulart apareceu-me esta delicia. Este “bolo” (com direito a cereja cristalizada em cima e muito, mas mesmo muito, chatilly).
Um texto do Francisco Lucas Pires sobre o Brasillach. Sim, dele mesmo, do próprio, do legítimo. Do tal que depois do 25 se afirmava “democrata desde pequenino” (para aí desde que foi desmamado, digo eu...):
Este texto não é recomendado a almas pouco dadas a experiências e emoções fortes. (pernas fofas – como lhes chamava o Goulart - façam favor de se abster...)
BRASILLACH CUMPRIU-SE...
Brasillach veio declarar a violência ao seu mundo e mataram-no.
Desde Cristo que é assim: os que vieram para escandalizar são mortos, mas depois regressam e já ninguém se pode libertar da sua escandalosa presença.
Aos carrascos deixou a sua morte, o remorso; a nós deixou-nos a sua vida, o exemplo.
Exemplo de juventude que se identifica pela insolência e pelo espírito, ele foi novo até na generosidade com que dispersou os seus talentos. Até nisso, integral.
A juventude é uma coisa e a idade outra. Mas a Brasillach nem sequer foi permitido atingir a idade em que os homens se costumam tornar velhos. Melhor: assim nos ficou a memória de uma imagem de juventude inteira: da física e da espiritual.
Foi ainda dessa maneira total que ficou connosco. O seu testemunho não está destinado à guarda de um erudito conservador de museu, está destinado à fidelidade dos seus voluntários camaradas.
Por isso, melhor cumpriremos colectivamente a tarefa e o cinismo de o testemunhar. É a melhor homenagem que devemos à sua magnífica lição de camaradagem, a nossa própria camaradagem.
A sua permanente atitude de afronta contra a hipocrisia e o cinismo e a audácia com que se manifestou a coragem reúnem-nos de novo, para confirmar a unidade original do espírito na unidade da acção.
Brasillach cumpriu-se: “Daqui a 20 anos ouvirão outra vez falar de nós”.
Ele preveniu-os.
Francisco Lucas Pires
E então o Goulart Nogueira?
Isto vem às catadupas. Recordo Rodrigo, Conde Veiga, Soveral e logo, logo vem Goulart à minha presença! A “moribundar-se” impotentemente há mais de três (longos) anos numa agonia que não merecia. Mas não merecia mesmo! Mais valia que tivesse ido como o seu grande Amigo Ernesto Sampaio.
Como o recordo, como sinto falta do seu génio, do seu mestrado, da sua vizinhança, da sua amizade!
Aqui já não há memória que aguente. Tenho de consultar os meus papéis. E escolher um texto:
Pois junto o útil ao agradável: vai um texto sobre o nosso Brasillach (de que Conde Veiga nos falava no poema anterior) e que também é uma minha homenagem ao Homem de Teatro que sempre foi o nosso Goulart. É isso mesmo:
BRASILLACH E O TEATRO
Há cinquenta anos foi assassinado um dos maiores autores franceses do nosso tempo. Há cinquenta anos as balas matavam Brasillach e, como assinalou Marcel Aymé, “a nossa vida, agora que ele já aqui não está, é como descolorida paisagem”, porque “ele nos trouxera a alegria, guardava-lhe o segredo”. No entanto, a sua obra continua viva, cada vez mais se ilumina, intensifica, enriquece de significado, servindo de alimento e de luzeiro e de fortaleza e de apoio às novas gerações. À medida que nos debruçamos para o que ele escreveu, descobrimos a rara qualidade da sua obra, a palpitação fraterna que a impulsiona, o senso poético que a trespassa, a finura psicológica que a desenha, a inteligência, a harmonia, a forma delicada e firme em que ela se realiza. E, depois, encontramos ali o melhor e o mais profundo de nós próprios, vemo-lo na fidelidade à permanência e na vibração renovadora, activa, comungamo-lo na actualidade e no actualismo, no desejo de pureza e amizade, reconhecemo-lo na juventude constante e no louvor da sabedoria.
Brasillach foi romancista, poeta, crítico, dramaturgo, cronista, jornalista, doutrinador, homem de acção. Escreveu sobre literatura, cinema, teatro, os vários acontecimentos da sua época. E em tudo deixou a marca de uma personalidade exemplar e não apenas significativa, foi e é, não um simples sinal dos tempos, mas um de nós e um nosso condutor. Esta dupla qualidade de companheiro e guia, esta vitória de nos exprimir, de se nos comunicar e ter sobre nós uma função formativa, estabelecem-no como um verdadeiro autor no sentido original do termo.
Graham Greene observa que o teatro, especialmente um teatro como o de Shakespeare, teatro alquímico, está ligado a épocas conturbadas como a nossa. O teatro, realmente, é conflito, drama, obra agónica, debate. Poderá Robert Brasillach entender-se com isto? Terá sido ele um homem de teatro? Ao observarmos a sua vida e ao lermos a sua obra, concluímos que sim. Como foi possível, então?
Brasillach sentia com percepção aguda e subtil os cortes do tempo em geral e os retalhamentos da sua época em especial. Ele tinha a consciência da caducidade, sabia como o tempo passa e sofria pelas divisões e pelas lutas. Mas o seu ideal de harmonia e permanência manifestava-se na afirmação, na vivência, na obra de juventude e amizade. Sem ignorar os conflitos, sem se lhes furtar, quer ultrapassá-los, conhece que a essência e a resolução de tudo estão no amor e na graça. A sua nostalgia de infância transporta-se e transmuda-se em apetite de futuro. Como notou Henri Massis, “num mundo onde se desenrola a cadeia das revoluções e das guerras, Robert Brasillach não queria, no entanto, senão pensar no futuro, naqueles que viriam, que um dia haviam de ter vinte anos”.
Brasillach vivia e insuflou na sua obra as limitações, as divisões, os golpes, as perdas, as dores, os males da natureza e da História, metafísicos ou físicos, mas tornados psíquicos, imprimidos e expressos na alma humana. Este realismo que dá uma leve respiração melancólica ao que escreveu este reconhecimento das oposições, conduz-se, porém, ao optimismo e busca a felicidade, a alegria em que acredita de que fala, que constrói sem desfalecimento. Como o Génesis, como Stº Agostinho, como o Cristianismo, ele sabe que o mal entrou no mundo, mas que tudo quanto Deus criou é bom. Em toda a Paixão está subentendida e triunfante uma florida Páscoa de ressurreição. O problema e o dever é reencontrar para além dos golpes a saúde, a inocência e a sabedoria, o equilíbrio terrestre e perdido. Brasillach acredita no nascimento daquela palavra que “é frágil”, mas que ele quer ver “inscrita nos corações dos homens” e que se chama felicidade. Compreende-se, pois, que ele se tenha referido ao “seu fraternal adversário” que ele tanto tenha falado em amizade e a louvasse maravilhosamente.
O teatro é debate, mas o conflito há-de ter um desenlace, uma justiça que traz uma paz. Com a vontade e o coração, com a sua energia ordenadora e o amor, vai-se construindo o equilíbrio e a paz. Por isso, encontramos no seu teatro, como nas suas críticas teatrais, como na sua actividade ao teatro ligada, como em toda a sua obra, aliás, a presença da vida real, mas o seu domínio também numa consecução de forma, tanto que a obtém calma e ágil límpida e sensível, perfeita imagem da perpétua criação e da esperança, da rectidão e da alegria, enfim, da juventude.
Goulart Nogueira
Como o recordo, como sinto falta do seu génio, do seu mestrado, da sua vizinhança, da sua amizade!
Aqui já não há memória que aguente. Tenho de consultar os meus papéis. E escolher um texto:
Pois junto o útil ao agradável: vai um texto sobre o nosso Brasillach (de que Conde Veiga nos falava no poema anterior) e que também é uma minha homenagem ao Homem de Teatro que sempre foi o nosso Goulart. É isso mesmo:
BRASILLACH E O TEATRO
Há cinquenta anos foi assassinado um dos maiores autores franceses do nosso tempo. Há cinquenta anos as balas matavam Brasillach e, como assinalou Marcel Aymé, “a nossa vida, agora que ele já aqui não está, é como descolorida paisagem”, porque “ele nos trouxera a alegria, guardava-lhe o segredo”. No entanto, a sua obra continua viva, cada vez mais se ilumina, intensifica, enriquece de significado, servindo de alimento e de luzeiro e de fortaleza e de apoio às novas gerações. À medida que nos debruçamos para o que ele escreveu, descobrimos a rara qualidade da sua obra, a palpitação fraterna que a impulsiona, o senso poético que a trespassa, a finura psicológica que a desenha, a inteligência, a harmonia, a forma delicada e firme em que ela se realiza. E, depois, encontramos ali o melhor e o mais profundo de nós próprios, vemo-lo na fidelidade à permanência e na vibração renovadora, activa, comungamo-lo na actualidade e no actualismo, no desejo de pureza e amizade, reconhecemo-lo na juventude constante e no louvor da sabedoria.
Brasillach foi romancista, poeta, crítico, dramaturgo, cronista, jornalista, doutrinador, homem de acção. Escreveu sobre literatura, cinema, teatro, os vários acontecimentos da sua época. E em tudo deixou a marca de uma personalidade exemplar e não apenas significativa, foi e é, não um simples sinal dos tempos, mas um de nós e um nosso condutor. Esta dupla qualidade de companheiro e guia, esta vitória de nos exprimir, de se nos comunicar e ter sobre nós uma função formativa, estabelecem-no como um verdadeiro autor no sentido original do termo.
Graham Greene observa que o teatro, especialmente um teatro como o de Shakespeare, teatro alquímico, está ligado a épocas conturbadas como a nossa. O teatro, realmente, é conflito, drama, obra agónica, debate. Poderá Robert Brasillach entender-se com isto? Terá sido ele um homem de teatro? Ao observarmos a sua vida e ao lermos a sua obra, concluímos que sim. Como foi possível, então?
Brasillach sentia com percepção aguda e subtil os cortes do tempo em geral e os retalhamentos da sua época em especial. Ele tinha a consciência da caducidade, sabia como o tempo passa e sofria pelas divisões e pelas lutas. Mas o seu ideal de harmonia e permanência manifestava-se na afirmação, na vivência, na obra de juventude e amizade. Sem ignorar os conflitos, sem se lhes furtar, quer ultrapassá-los, conhece que a essência e a resolução de tudo estão no amor e na graça. A sua nostalgia de infância transporta-se e transmuda-se em apetite de futuro. Como notou Henri Massis, “num mundo onde se desenrola a cadeia das revoluções e das guerras, Robert Brasillach não queria, no entanto, senão pensar no futuro, naqueles que viriam, que um dia haviam de ter vinte anos”.
Brasillach vivia e insuflou na sua obra as limitações, as divisões, os golpes, as perdas, as dores, os males da natureza e da História, metafísicos ou físicos, mas tornados psíquicos, imprimidos e expressos na alma humana. Este realismo que dá uma leve respiração melancólica ao que escreveu este reconhecimento das oposições, conduz-se, porém, ao optimismo e busca a felicidade, a alegria em que acredita de que fala, que constrói sem desfalecimento. Como o Génesis, como Stº Agostinho, como o Cristianismo, ele sabe que o mal entrou no mundo, mas que tudo quanto Deus criou é bom. Em toda a Paixão está subentendida e triunfante uma florida Páscoa de ressurreição. O problema e o dever é reencontrar para além dos golpes a saúde, a inocência e a sabedoria, o equilíbrio terrestre e perdido. Brasillach acredita no nascimento daquela palavra que “é frágil”, mas que ele quer ver “inscrita nos corações dos homens” e que se chama felicidade. Compreende-se, pois, que ele se tenha referido ao “seu fraternal adversário” que ele tanto tenha falado em amizade e a louvasse maravilhosamente.
O teatro é debate, mas o conflito há-de ter um desenlace, uma justiça que traz uma paz. Com a vontade e o coração, com a sua energia ordenadora e o amor, vai-se construindo o equilíbrio e a paz. Por isso, encontramos no seu teatro, como nas suas críticas teatrais, como na sua actividade ao teatro ligada, como em toda a sua obra, aliás, a presença da vida real, mas o seu domínio também numa consecução de forma, tanto que a obtém calma e ágil límpida e sensível, perfeita imagem da perpétua criação e da esperança, da rectidão e da alegria, enfim, da juventude.
Goulart Nogueira
Recordações
A nossa cabeça prega-nos partidas imensas. Quando acabei de escrever o postal anterior, e, ainda sem os meus documentos, veio-me à memória todo um poema de João Conde Veiga, Homem e Poeta que nos abandonou fisicamente no mesmo dia do Rodrigo Emílio. Talvez por isso – e acima de tudo por isso – o seu passamento na sua Vila do Conde natal, “passou ao lado” de todas as homenagens a que tinha total e inteiro direito pelo seu labor, pelo seu saber, pelo seu talento, pelo seu militantismo.
Trata-se de um poema de homenagem a Brasillach. Belo, belíssimo e muito sentido. Só peço desculpa se não sair tal e qual, mas é como o recordo:
Seara do Céu
Levanto-me como a espiga
Ao sol de antigamente
Com o dom de agricultura
De ser uma semente.
Levanto-me entre as ervas
Que crescem pelo prado
E trago a dor humana
De não sofrer calado.
Liberto-me, ergo a voz
Da minha condição
Num grito que mais vale
O som da multidão.
A quem lhes rouba o fogo
Os deuses são adversos:
Chénier ficou morto
Suspenso entre dois versos.
Os homens não perdoam
Os verbos no futuro:
Brasillach vive ainda
Caído junto ao muro.
Erguemo-nos, cantamos
A alegria inteira
Da morte vir e termos
No corpo uma bandeira.
Crescendo com as espigas
Ao sol de antigamente
Com o dom de trazermos
No corpo uma semente.
João Conde Veiga
Trata-se de um poema de homenagem a Brasillach. Belo, belíssimo e muito sentido. Só peço desculpa se não sair tal e qual, mas é como o recordo:
Seara do Céu
Levanto-me como a espiga
Ao sol de antigamente
Com o dom de agricultura
De ser uma semente.
Levanto-me entre as ervas
Que crescem pelo prado
E trago a dor humana
De não sofrer calado.
Liberto-me, ergo a voz
Da minha condição
Num grito que mais vale
O som da multidão.
A quem lhes rouba o fogo
Os deuses são adversos:
Chénier ficou morto
Suspenso entre dois versos.
Os homens não perdoam
Os verbos no futuro:
Brasillach vive ainda
Caído junto ao muro.
Erguemo-nos, cantamos
A alegria inteira
Da morte vir e termos
No corpo uma bandeira.
Crescendo com as espigas
Ao sol de antigamente
Com o dom de trazermos
No corpo uma semente.
João Conde Veiga
As “cenas” dos últimos dias
Cito de cor: (não tenho comigo os meus documentos) “ a nossa gente não tem de mudar de ideias, mas as nossa ideias é que tem de mudar de (alguma) gente”.
Quem o disse – e repetiu dezenas de vezes - foi o nosso inesquecível Rodrigo Emílio (como sempre, mas mesmo sempre, com carradas de razão).
Também me apetece citar o nosso Ortega Y Gasset, Mestre de tantos nós (e tão difundido em Portugal por Carlos Eduardo do Soveral). E que dizia:
“O homem excepcional não é o petulante que se crê superior aos outros, mas aquele que exige mais a si próprio que aos demais.
A característica do momento é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem o desplante de afirmar o direito à vulgaridade e de a impor em toda a parte.”
E mais (sobre este assunto) não me apetece, para já, dizer. Fico-me!
Quem o disse – e repetiu dezenas de vezes - foi o nosso inesquecível Rodrigo Emílio (como sempre, mas mesmo sempre, com carradas de razão).
Também me apetece citar o nosso Ortega Y Gasset, Mestre de tantos nós (e tão difundido em Portugal por Carlos Eduardo do Soveral). E que dizia:
“O homem excepcional não é o petulante que se crê superior aos outros, mas aquele que exige mais a si próprio que aos demais.
A característica do momento é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem o desplante de afirmar o direito à vulgaridade e de a impor em toda a parte.”
E mais (sobre este assunto) não me apetece, para já, dizer. Fico-me!
Haja quem enquadre e discipline essa gente!
Ou então ...
quarta-feira, setembro 26, 2007
FUI ENTREGUE À FRELIMO
Como fora prometido, eis as declarações de Luís Fernandes , preso por militares portugueses e por eles entregues à Frelimo, quando Moçambique ainda era terra portuguesa. Uma página vergonhosa da nossa «descolonização exemplar» que a correcção política que ora se vive, a brandura consabida dos nossos costumes e alguns compadrios de circunstância tentam fazer esquecer. Luís Fernandes , licenciado em Ciências Sociais e Política Ultramarina, oficial miliciano com o curso de Acção Psicológica, ofereceu-se na Região Militar de Moçambique para os Grupos Especiais Pára-quedistas, onde, concluído o respectivo curso, combateu no mato, meses a fio, os terroristas da Frelimo, primeiro como alferes e depois graduado em capitão. Não aderiu ao MFA e mantém-se coerentemente fiel às suas ideias. Leccionou durante dez anos na Universidade Autónoma de Lisboa, onde foi regente das cadeiras de Introdução às Ciências Sociais, e Ciência Política. Presentemente prepara uma tese de mestrado. Foi um dos fundadores da Associação dos Grupos Especiais e Grupos Especiais Pára-quedistas, de cuja mesa da assembleia-geral é vice-presidente. Continua fascista.
“Mantenho o que disse”
Porém, como se viu na carte que enviou a “O Diabo”, publicada na semana passada, o agora general Lopes Camilo, refuta todas as tuas acusações. Ele invoca, até, uma carreira prestigiante e sem mácula.
Que o senhor major-general Lopes Camilo, no decorrer da sua longa carreira militar, possa ter feito coisas muito meritórias, não o questiono. Nem lhe contesto o valor daquilo que, digno de louvor, eventualmente tenha feito até se envolver na conspiração dos capitães, durante a qual, segundo o então capitão José C. Pais, acompanhou esse oficial, hoje coronel, e outros dois camaradas, os então capitães Lobato Faria e Mariz Fernandes, entregar na Presidência do Conselho o texto aprovado na assembleia de Évora de 9 de Setembro de 1973. Nessa altura, ele, capitão Lopes Camilo aguardou corajosamente num carro, com os então capitão Vasco Lourenço e tenente Marques Júnior, que os outros fossem eventualmente presos.
O que está aqui em causa, e me interessa salientar, reporta-se exclusivamente ao comportamento que teve em Moçambique nesse conturbado período de 1974/75.
Dou testemunho da verdade, nua e crua, sem o menor manto diáfano de fantasia. E não há nada mais brutal do que um facto. Aconteceu. É assim, sem tirar nem pôr. Só mentindo com quantos dentes tem, poderá o senhor major-general Lopes Camilo negar a evidência.
Terá sido um caso de dupla personalidade? Um remake do Dr. Jekill and Hyde? O brioso oficial, em noites de luar, transformar-se-ia em lobisomem? Mistério…
É realmente inacreditável que alguém com o perfil de militar impoluto, apresentado pelo próprio na sua carta de 17 de Outubro de 2003, nascido numa boa família, educado, ao que parece, no culto da honra e do dever militar, temente a Deus e devotado à Pátria, possa ter assumido comportamentos e atitudes em tão flagrante contradição com os mesmos princípios e valores que a Família e a Escola lhe haviam, aparentemente, incutido.
Foi apanhado pela voragem tresloucada do PREC em África? Ultrapassado pelos acontecimentos? Ou responsável consciente e determinado da tragédia que foi a “exemplar descolonização”, com o arrastar da bandeira das quinas na lama, pelas ruas da amargura?
Passando por cima das suas declarações acerca da sua carreira militar, como analisas o pouco que diz realmente relacionado com os acontecimentos de 1974, em Lourenço Marques?
O que é que o senhor major-general entende por “nunca ter pertencido a qualquer estrutura organizativa do movimento das forças armadas”? Valha-me Deus! Eu nunca disse que ele tivesse pertencido ao Conselho dos Vinte ou ao Conselho da Revolução. Mas havia outras estruturas menos conhecidas, mais informais, a nível local, que assumiam uma importância bem superior às “inseridas na cadeia hierárquica e funcional existente”.
Era público e notório, em Lourenço Marques, que o então capitão Camilo era, de facto, uma figura proeminente do MFA local e um esteio fundamental da diabólica “aliança MFA/Frelimo”, fizesse ou não parte oficialmente da Comissão Militar Mista. Conheço por aí muita gente que afirma o mesmo.
Oficiais superiores do Exército Português houve que foram vistos “a tiritar de coragem” face aos bravos rapazes do MFA, cujo poder paralelo ao da hierarquia formal constituía esse Novíssimo Príncipe, denunciado pelo Prof. Adriano Moreira; uma estrutura de carácter revolucionário, omnipresente e omnipotente, que controlava tudo e todos. Quem – só para ser desautorizado, desobedecido, saneado ou até preso – corria o risco de desafiar a autoridade dos “homens sem sono” que, de facto, mandavam, sem se preocuparem com as opiniões, as sensibilidades, ou os pruridos das altas patentes do velho Exército?
Que o senhor major-general Lopes Camilo tenha bem presente que à sua volta, em Lourenço Marques, havia muitos militares que observavam e não compartilhavam das suas ideias, muita gente que não sentia nenhuma afinidade com o MFA e muito menos com a Frelimo…
Havia de facto bastantes oficiais que se sentiam incomodados, e até chocados, com as manifestações de amizade e confraternização ao “seu camarada” Jacinto Veloso que, para todos os efeitos, não passa de um desertor das Forças Armadas Portuguesas, um tenente piloto aviador (PQP) da Força Aérea Portuguesa que havia desertado, aterrando com um bombardeiro T-6 na Tanzânia onde fora recebido com braços abertos “pelos seus camaradas da Frelimo”. (Será que também teve direito a alguma comendazita da Ordem da Liberdade, por exemplo). Em suma, um traidor que tinha passado ao Inimigo e se tornara deste modo cúmplice, senão autor directo, da morte de muitos dos nossos soldados.
O senhor major-coronel Lopes Camilo terá de entender que a maioria dos militares portugueses, dos antigos e dos actuais, não compartilham da opinião do meu amigo (sem ironia) major (sem general…) Mário Tomé, quando este defendeu num artigo inserido no Público de 18 de Agosto de 2003 que “houve milhares de desertores do Exército Português, dignos do maior respeito, porque não aceitaram lutar contra a liberdade no exército colonial ao serviço de um estado colonialista e fascista.”
Manténs, portanto, todas as tuas acusações? Que esperas conseguir?
Mantenho o que disse, com toda a minha veemência, até aos finais dos meus dias. Esperar, espero muito pouco. Que o general Lopes Camilo abandone a Direcção da Liga dos Combatentes. A sua permanência na Direcção é um insulto para todos os que se bateram por um Portugal que ele ajudou a destruir.
In O Diabo, 11.09.2003, págs. 6/7.
“Mantenho o que disse”
Porém, como se viu na carte que enviou a “O Diabo”, publicada na semana passada, o agora general Lopes Camilo, refuta todas as tuas acusações. Ele invoca, até, uma carreira prestigiante e sem mácula.
Que o senhor major-general Lopes Camilo, no decorrer da sua longa carreira militar, possa ter feito coisas muito meritórias, não o questiono. Nem lhe contesto o valor daquilo que, digno de louvor, eventualmente tenha feito até se envolver na conspiração dos capitães, durante a qual, segundo o então capitão José C. Pais, acompanhou esse oficial, hoje coronel, e outros dois camaradas, os então capitães Lobato Faria e Mariz Fernandes, entregar na Presidência do Conselho o texto aprovado na assembleia de Évora de 9 de Setembro de 1973. Nessa altura, ele, capitão Lopes Camilo aguardou corajosamente num carro, com os então capitão Vasco Lourenço e tenente Marques Júnior, que os outros fossem eventualmente presos.
O que está aqui em causa, e me interessa salientar, reporta-se exclusivamente ao comportamento que teve em Moçambique nesse conturbado período de 1974/75.
Dou testemunho da verdade, nua e crua, sem o menor manto diáfano de fantasia. E não há nada mais brutal do que um facto. Aconteceu. É assim, sem tirar nem pôr. Só mentindo com quantos dentes tem, poderá o senhor major-general Lopes Camilo negar a evidência.
Terá sido um caso de dupla personalidade? Um remake do Dr. Jekill and Hyde? O brioso oficial, em noites de luar, transformar-se-ia em lobisomem? Mistério…
É realmente inacreditável que alguém com o perfil de militar impoluto, apresentado pelo próprio na sua carta de 17 de Outubro de 2003, nascido numa boa família, educado, ao que parece, no culto da honra e do dever militar, temente a Deus e devotado à Pátria, possa ter assumido comportamentos e atitudes em tão flagrante contradição com os mesmos princípios e valores que a Família e a Escola lhe haviam, aparentemente, incutido.
Foi apanhado pela voragem tresloucada do PREC em África? Ultrapassado pelos acontecimentos? Ou responsável consciente e determinado da tragédia que foi a “exemplar descolonização”, com o arrastar da bandeira das quinas na lama, pelas ruas da amargura?
Passando por cima das suas declarações acerca da sua carreira militar, como analisas o pouco que diz realmente relacionado com os acontecimentos de 1974, em Lourenço Marques?
O que é que o senhor major-general entende por “nunca ter pertencido a qualquer estrutura organizativa do movimento das forças armadas”? Valha-me Deus! Eu nunca disse que ele tivesse pertencido ao Conselho dos Vinte ou ao Conselho da Revolução. Mas havia outras estruturas menos conhecidas, mais informais, a nível local, que assumiam uma importância bem superior às “inseridas na cadeia hierárquica e funcional existente”.
Era público e notório, em Lourenço Marques, que o então capitão Camilo era, de facto, uma figura proeminente do MFA local e um esteio fundamental da diabólica “aliança MFA/Frelimo”, fizesse ou não parte oficialmente da Comissão Militar Mista. Conheço por aí muita gente que afirma o mesmo.
Oficiais superiores do Exército Português houve que foram vistos “a tiritar de coragem” face aos bravos rapazes do MFA, cujo poder paralelo ao da hierarquia formal constituía esse Novíssimo Príncipe, denunciado pelo Prof. Adriano Moreira; uma estrutura de carácter revolucionário, omnipresente e omnipotente, que controlava tudo e todos. Quem – só para ser desautorizado, desobedecido, saneado ou até preso – corria o risco de desafiar a autoridade dos “homens sem sono” que, de facto, mandavam, sem se preocuparem com as opiniões, as sensibilidades, ou os pruridos das altas patentes do velho Exército?
Que o senhor major-general Lopes Camilo tenha bem presente que à sua volta, em Lourenço Marques, havia muitos militares que observavam e não compartilhavam das suas ideias, muita gente que não sentia nenhuma afinidade com o MFA e muito menos com a Frelimo…
Havia de facto bastantes oficiais que se sentiam incomodados, e até chocados, com as manifestações de amizade e confraternização ao “seu camarada” Jacinto Veloso que, para todos os efeitos, não passa de um desertor das Forças Armadas Portuguesas, um tenente piloto aviador (PQP) da Força Aérea Portuguesa que havia desertado, aterrando com um bombardeiro T-6 na Tanzânia onde fora recebido com braços abertos “pelos seus camaradas da Frelimo”. (Será que também teve direito a alguma comendazita da Ordem da Liberdade, por exemplo). Em suma, um traidor que tinha passado ao Inimigo e se tornara deste modo cúmplice, senão autor directo, da morte de muitos dos nossos soldados.
O senhor major-coronel Lopes Camilo terá de entender que a maioria dos militares portugueses, dos antigos e dos actuais, não compartilham da opinião do meu amigo (sem ironia) major (sem general…) Mário Tomé, quando este defendeu num artigo inserido no Público de 18 de Agosto de 2003 que “houve milhares de desertores do Exército Português, dignos do maior respeito, porque não aceitaram lutar contra a liberdade no exército colonial ao serviço de um estado colonialista e fascista.”
Manténs, portanto, todas as tuas acusações? Que esperas conseguir?
Mantenho o que disse, com toda a minha veemência, até aos finais dos meus dias. Esperar, espero muito pouco. Que o general Lopes Camilo abandone a Direcção da Liga dos Combatentes. A sua permanência na Direcção é um insulto para todos os que se bateram por um Portugal que ele ajudou a destruir.
In O Diabo, 11.09.2003, págs. 6/7.
A Prisão e as provações de Luís Fernandes
“Levado sob escolta militar para o Comando Territorial Sul, fui conduzido a uma vasta sala do edifício. Deparei com dois sujeitos: um, sentado atrás de uma secretária, fardado, com galões de capitão, que se identificou como sendo o capitão Camilo, ... Os soldados portugueses retiraram-se e enquanto o capitão Camilo me mandava sentar numa cadeira à sua frente, colocaram-se à minha esquerda e à minha direita, dois jovens guerrilheiros da FRELIMO, andrajosos e sujos, apontando-me as suas Kalashnikovs.
Como reagiste?
Surpreendido ainda protestei, perguntando ao capitão Camilo se não tinha soldados nossos para me guardar e se era preciso que o Inimigo o fizesse. Conservo bem viva na memória a resposta do hoje major-general: “Então você não leu o tratado (sic) de Lusaca? Eles agora são as nossas tropas.” E acrescentou com um sorriso sarcástico: “O Inimigo é você!”
...
Foste interrogado?
Nem por isso. Não com pés e cabeça. O capitão Camilo, satisfeito com o efeito da sua inesperada declaração, perante o meu ar de espanto, folheou a minha agenda e revistou a minha carteira, fazendo-me diversas perguntas a que eu invariavelmente respondia: “não me lembro”. Concluiu, sempre com o mesmo sorriso sarcástico na face, que “eu comia demasiado queijo e que talvez a Frelimo conseguisse que eu recuperasse a memória….”.
Fez-te ameaças?
Não de olhos nos olhos. Só insinuações como a que reproduzi acima. Lá foi dizendo que o tratamento que poderia esperar da Frelimo não seria exactamente aquele que a Declaração Universal dos Direitos do Homem preconizava. Por isso, indignado, protestei com veemência e disse-lhe textualmente que “parecia impossível que um capitão do Exército Português pudesse entregar ao inimigo antigos camaradas de armas” e acrescentei que me mantinha nesta situação “sem terem, em termos jurídicos, encontrado a menor prova contra mim.” O capitão Camilo encolheu os ombros e disse displicentemente que, na presente situação, “se não tinha provas, também não tinha dúvidas, pelo que em termos revolucionários, faria de mim o que entendesse.”
...
Terminado o interrogatório, ficaste preso?
Dada a avançada hora, o interrogatório foi dado por findo e fui levado, com os mesmo aparato militar, para a antiga cadeia da Machava, ...
Fui fechado numa cela que, para além da porta de grades tinha uma porta de madeira, pelo que não vias o que se passava no exterior. A alimentação era o rancho da tropa portuguesa, ... O oficial português que comandava essa tropa e que vim a conhecer, era cortês.
Voltaste a ver o capitão Camilo?
Duas ou três vezes apareceu o capitão Camilo na cadeia para me interrogar. Nada conseguindo saber pela minha parte. Vinha fardado, conduzindo ele próprio o jipe militar e trazendo como guarda-costas um guerrilheiro armado no banco de trás, como se tivesse aproveitado uma boleia.
Terminado o isolamento juntei-me aos meus companheiros de cárcere no pavilhão onde nos encontrávamos detidos e que tinha as portas abertas.
A prisão ia-se enchendo com a entrada de novos presos e fiquei na mesma cela em que se encontravam um juiz de direito e um engenheiro doutorado por uma universidade sul-africana. O meio era realmente selecto.
Tiveste direito a advogado? Que soubeste do enquadramento legal da tua situação?
Fui visitado por um advogado de Lourenço Marques, Dr. Antero Sobral, pertencente ao grupo dos “Democratas de Moçambique” e que fora um dos signatários dos acordos de Lusaca (a que o capitão Camilo chamava pomposamente de tratado), mas que se dava com amigos meus entretanto refugiados na África do Sul. Mostrou-me a legislação revolucionária entretanto elaborada pelo alto-comissário Vítor Crespo: em dois decretos-lei publicados no Boletim Oficial da Província que “instituíam os crimes contra a descolonização! Como a lei penal não tem efeitos retroactivos se não para benefício dos réus e como já me encontrava preso à data da publicação desses diplomas, não se me aplicavam. Disse-me então o Dr. Antero Sobral, visivelmente constrangido, dada a sua formação jurídica, que nem valia a pena constituí-lo como defensor porque “tudo era feito à margem da Lei, e até contra os princípios gerais do Direito». Agradeci a visita e o seu interesse, tanto mais que éramos adversários políticos.
Além de ti e dos outros seis ex-militares detidos pela mesma altura, houve mais prisões?
Em dada altura juntou-se a nós outro grupo de prisioneiros, também presos pelo MFA. Esses eram todos negros e, se bem que, pessoalmente, não conhecesse nenhum deles, sabia quem eram, pois eram figuras públicas. Todos eles ou quase todos tinham pertencido à Frelimo e tinham, por diversos motivos, abandonado o movimento terrorista, vindo a acolher-se à protecção das autoridades militares portuguesas, bem antes do 25 de Abril. Confiados nas promessas então feitas, tinham permanecido em Moçambique vindo agora ser presos pelo Exército Português. Entre eles, estavam Joana Simeão, Dr. Júlio Razão, Paulo Mondlane, Paulo Gumane, Mateus Gwengere, fomos, mais tardem brancos e negros, levados para a cadeia penitenciária, onde começaram a afluir, em Dezembro de 1974, vagas sucessivas de presos, maioritariamente brancos, sendo muitos deles antigos combatentes oriundos do recrutamento provincial, que haviam passado à disponibilidade, como eu, muito recentemente. Já não havia sequer interrogatórios: aquilo era “um depósito de reaccionários”. Escusado será dizer que o ambiente entre os presos, brancos e negros, era de sã camaradagem e que gozávamos da camaradagem dos soldados portugueses que nos guardavam conjuntamente com o destacamento armado da Frelimo.
O comandante da penitenciária era um capitão de cavalaria que manteve um comportamento correcto connosco, dadas as circunstâncias. Hoje é coronel na reserva e também teve atritos com os turbulentos guerrilheiros da FRELIMO, pelo que regressou à Metrópole farto dos tiranetes do MFA, entre os quais o capitão Camilo, e os “libertadores” de Samora Machel.
Fome e “trabalhos agrícolas”
Foi então que foram entregues à Frelimo e levados para os famigerados “campos de reeducação”?
Sim, cerca de três meses antes da independência de Moçambique. Um dia, de madrugada, apareceu na penitenciária o recém nomeado inspector da PJ Jorge Costa, antigo estudante contestatário de Coimbra, também ele desertor, à civil e com una pistola-metralhadora a tiracolo que, escoltado por guerrilheiros, nos veio buscar a mim, ao capitão miliciano na disponibilidade Rui Leal Marques e mais cinco metropolitanos, escolhidos a dedo, bem como a um grupo de negros, cuja lista, disse-me ele durante a viagem, fora elaborada pelo capitão Camilo e pelo “camarada” Veloso. Levaram-nos para o aeroporto e daí seguimos viagem até Cabo Delgado num bimotor civil, com escala técnica no aeroporto da Beira. Em Porto Amélia, entregaram-nos ao comando local da FRELIMO e dali seguimos, em Land Rovers,..., passando por Macomia, Chai, Mocímboa da Praia (onde pernoitámos), Diaca, Nacatar, Sagal, Nangololo, até atingirmos finalmente Mueda. Mueda, onde já não havia tropa portuguesa, tinha-se tornado o epicentro da ocupação frelimista de Cabo Delgado. ...
Reunidos guerrilheiros e elementos da população autóctone em número apreciável, fomos submetidos a um “julgamento popular”, pelos crimes supostamente cometidos. O comandante Mingas, que era então a autoridade máxima da Frelimo em Mueda, proferiu um longo discurso em maconde, entrecortado por palavras de ordem. Não entendemos nada do que ele disse, mas não gostámos. Seguidamente, “perfilou-se” diante de nós um pelotão de fuzilamento. Mas a nossa hora ainda não tinha chegado. Tratava-se de uma encenação, imprópria para cardíacos.
Recolhemos à nossa prisão provisória, que era uma antiga caserna. No dia seguinte, aterrou na pista de Mueda um Nord Atlas da FAP, pilotado por oficiais portugueses, e os detidos negros (Joana Simeão e todos os outros), foram embarcados, contra sua vontade, para a Tanzânia. Alegavam a sua cidadania portuguesa e, embora o seu portuguesismo de fresca data pudesse ser oportunista. Seja como for, foram levados na Nachingwea e todos eles mortos.
Quanto a nós, os sete brancos e metropolitanos, fomos separados e enviados para “campos de reeducação” situados nas antigas bases Beira, Gungunhana, Central, etc. Longos meses depois, fomos reagrupados em Porto Amélia, onde um casal de médicos búlgaros, cooperantes em Cabo Delgado, mandaram-nos dar injecções, suponho que de vitaminas, para termos um aspecto menos depauperado, e deram-nos também bastante comida para recuperar algo do peso perdido.
Entretanto, na Metrópole tinha-se gerado um movimento para a nossa libertação, tendo até o Dr. Jaime Gama tido uma intervenção nesse sentido na Assembleia Constituinte. A derrota da extrema-esquerda militar em 25 de Novembro de 1975 tornou possível que o ministério dos Negócios Estrangeiros começasse finalmente a actuar e obtivesse, com a ida a Lourenço Marques de um alto funcionário, a nossa libertação.
Como era o dia-a-dia nesses campos?
Fome. Sobretudo fome. E cerca de 14 horas diárias de “trabalhos agrícolas” que, na verdade, nada produziam dada a forma rudimentar como era praticada. Claro que não havia medicamentos nem qualquer tipo de assistência.
Maus tratos?
Sobretudo à nossa dignidade. Mas quase nunca maus tratos físicos. Isto em relação aos brancos. Com os negros, as coisas já eram bastante diferentes.
No entanto, ficaste muito debilitado e vieste a ter problemas de saúde.
Já na Metrópole tive um forte ataque de paludismo e depois de ter feito análises, foi-me diagnosticado uma hepatite não-A e não-B, devida, sem dúvida, à quase inexistente assepsia nos tratamentos a que fomos submetidos em Cabo Delgado. Mais tarde, em 1994, submeti-me a uma biopsia hepática e foi então confirmada uma hepatite C, crónica, com a qual tenho vivido com a graça de Deus.
Passados estes quase trinta anos, como recordas o capitão Lopes Camilo?
Tenho o privilégio de ser sócio da Liga dos Combatentes, com as quotas em dia, desde 1978. Se há sócios que não têm pejo em cumprimentar o major-general Lopes Camilo, considerando de somenos importância as provações que outros combatentes por culpa dele passaram em Moçambique, que lhes faça bom proveito. Quanto a mim não me deixo obnubilar pelo brilho da grã-cruz da Ordem da Liberdade que ele ostenta ... no seu uniforme ... Não sou obrigado a apertar-lhe a mão, assim como não tive possibilidade de lhe apertar o pescoço quando tão alegremente confraternizava com um desertor.
Mas, como diz o Poeta “a mim ninguém me cala”, que fique aqui registado para “memória futura” (como hoje parece ser moda) o meu depoimento sobre as façanhas do major-general Lopes Camilo em Moçambique nos longínquos anos da vergonha de 1974 e 1975. Decerto o alto-comissário e comandante-chefe de Moçambique que lhe terá outorgado generosamente um ou dois “louvorzinhos” por relevantes serviços ao Exército Português, que se foram agregar à sua já reluzente folha de serviços.
Como reagiste?
Surpreendido ainda protestei, perguntando ao capitão Camilo se não tinha soldados nossos para me guardar e se era preciso que o Inimigo o fizesse. Conservo bem viva na memória a resposta do hoje major-general: “Então você não leu o tratado (sic) de Lusaca? Eles agora são as nossas tropas.” E acrescentou com um sorriso sarcástico: “O Inimigo é você!”
...
Foste interrogado?
Nem por isso. Não com pés e cabeça. O capitão Camilo, satisfeito com o efeito da sua inesperada declaração, perante o meu ar de espanto, folheou a minha agenda e revistou a minha carteira, fazendo-me diversas perguntas a que eu invariavelmente respondia: “não me lembro”. Concluiu, sempre com o mesmo sorriso sarcástico na face, que “eu comia demasiado queijo e que talvez a Frelimo conseguisse que eu recuperasse a memória….”.
Fez-te ameaças?
Não de olhos nos olhos. Só insinuações como a que reproduzi acima. Lá foi dizendo que o tratamento que poderia esperar da Frelimo não seria exactamente aquele que a Declaração Universal dos Direitos do Homem preconizava. Por isso, indignado, protestei com veemência e disse-lhe textualmente que “parecia impossível que um capitão do Exército Português pudesse entregar ao inimigo antigos camaradas de armas” e acrescentei que me mantinha nesta situação “sem terem, em termos jurídicos, encontrado a menor prova contra mim.” O capitão Camilo encolheu os ombros e disse displicentemente que, na presente situação, “se não tinha provas, também não tinha dúvidas, pelo que em termos revolucionários, faria de mim o que entendesse.”
...
Terminado o interrogatório, ficaste preso?
Dada a avançada hora, o interrogatório foi dado por findo e fui levado, com os mesmo aparato militar, para a antiga cadeia da Machava, ...
Fui fechado numa cela que, para além da porta de grades tinha uma porta de madeira, pelo que não vias o que se passava no exterior. A alimentação era o rancho da tropa portuguesa, ... O oficial português que comandava essa tropa e que vim a conhecer, era cortês.
Voltaste a ver o capitão Camilo?
Duas ou três vezes apareceu o capitão Camilo na cadeia para me interrogar. Nada conseguindo saber pela minha parte. Vinha fardado, conduzindo ele próprio o jipe militar e trazendo como guarda-costas um guerrilheiro armado no banco de trás, como se tivesse aproveitado uma boleia.
Terminado o isolamento juntei-me aos meus companheiros de cárcere no pavilhão onde nos encontrávamos detidos e que tinha as portas abertas.
A prisão ia-se enchendo com a entrada de novos presos e fiquei na mesma cela em que se encontravam um juiz de direito e um engenheiro doutorado por uma universidade sul-africana. O meio era realmente selecto.
Tiveste direito a advogado? Que soubeste do enquadramento legal da tua situação?
Fui visitado por um advogado de Lourenço Marques, Dr. Antero Sobral, pertencente ao grupo dos “Democratas de Moçambique” e que fora um dos signatários dos acordos de Lusaca (a que o capitão Camilo chamava pomposamente de tratado), mas que se dava com amigos meus entretanto refugiados na África do Sul. Mostrou-me a legislação revolucionária entretanto elaborada pelo alto-comissário Vítor Crespo: em dois decretos-lei publicados no Boletim Oficial da Província que “instituíam os crimes contra a descolonização! Como a lei penal não tem efeitos retroactivos se não para benefício dos réus e como já me encontrava preso à data da publicação desses diplomas, não se me aplicavam. Disse-me então o Dr. Antero Sobral, visivelmente constrangido, dada a sua formação jurídica, que nem valia a pena constituí-lo como defensor porque “tudo era feito à margem da Lei, e até contra os princípios gerais do Direito». Agradeci a visita e o seu interesse, tanto mais que éramos adversários políticos.
Além de ti e dos outros seis ex-militares detidos pela mesma altura, houve mais prisões?
Em dada altura juntou-se a nós outro grupo de prisioneiros, também presos pelo MFA. Esses eram todos negros e, se bem que, pessoalmente, não conhecesse nenhum deles, sabia quem eram, pois eram figuras públicas. Todos eles ou quase todos tinham pertencido à Frelimo e tinham, por diversos motivos, abandonado o movimento terrorista, vindo a acolher-se à protecção das autoridades militares portuguesas, bem antes do 25 de Abril. Confiados nas promessas então feitas, tinham permanecido em Moçambique vindo agora ser presos pelo Exército Português. Entre eles, estavam Joana Simeão, Dr. Júlio Razão, Paulo Mondlane, Paulo Gumane, Mateus Gwengere, fomos, mais tardem brancos e negros, levados para a cadeia penitenciária, onde começaram a afluir, em Dezembro de 1974, vagas sucessivas de presos, maioritariamente brancos, sendo muitos deles antigos combatentes oriundos do recrutamento provincial, que haviam passado à disponibilidade, como eu, muito recentemente. Já não havia sequer interrogatórios: aquilo era “um depósito de reaccionários”. Escusado será dizer que o ambiente entre os presos, brancos e negros, era de sã camaradagem e que gozávamos da camaradagem dos soldados portugueses que nos guardavam conjuntamente com o destacamento armado da Frelimo.
O comandante da penitenciária era um capitão de cavalaria que manteve um comportamento correcto connosco, dadas as circunstâncias. Hoje é coronel na reserva e também teve atritos com os turbulentos guerrilheiros da FRELIMO, pelo que regressou à Metrópole farto dos tiranetes do MFA, entre os quais o capitão Camilo, e os “libertadores” de Samora Machel.
Fome e “trabalhos agrícolas”
Foi então que foram entregues à Frelimo e levados para os famigerados “campos de reeducação”?
Sim, cerca de três meses antes da independência de Moçambique. Um dia, de madrugada, apareceu na penitenciária o recém nomeado inspector da PJ Jorge Costa, antigo estudante contestatário de Coimbra, também ele desertor, à civil e com una pistola-metralhadora a tiracolo que, escoltado por guerrilheiros, nos veio buscar a mim, ao capitão miliciano na disponibilidade Rui Leal Marques e mais cinco metropolitanos, escolhidos a dedo, bem como a um grupo de negros, cuja lista, disse-me ele durante a viagem, fora elaborada pelo capitão Camilo e pelo “camarada” Veloso. Levaram-nos para o aeroporto e daí seguimos viagem até Cabo Delgado num bimotor civil, com escala técnica no aeroporto da Beira. Em Porto Amélia, entregaram-nos ao comando local da FRELIMO e dali seguimos, em Land Rovers,..., passando por Macomia, Chai, Mocímboa da Praia (onde pernoitámos), Diaca, Nacatar, Sagal, Nangololo, até atingirmos finalmente Mueda. Mueda, onde já não havia tropa portuguesa, tinha-se tornado o epicentro da ocupação frelimista de Cabo Delgado. ...
Reunidos guerrilheiros e elementos da população autóctone em número apreciável, fomos submetidos a um “julgamento popular”, pelos crimes supostamente cometidos. O comandante Mingas, que era então a autoridade máxima da Frelimo em Mueda, proferiu um longo discurso em maconde, entrecortado por palavras de ordem. Não entendemos nada do que ele disse, mas não gostámos. Seguidamente, “perfilou-se” diante de nós um pelotão de fuzilamento. Mas a nossa hora ainda não tinha chegado. Tratava-se de uma encenação, imprópria para cardíacos.
Recolhemos à nossa prisão provisória, que era uma antiga caserna. No dia seguinte, aterrou na pista de Mueda um Nord Atlas da FAP, pilotado por oficiais portugueses, e os detidos negros (Joana Simeão e todos os outros), foram embarcados, contra sua vontade, para a Tanzânia. Alegavam a sua cidadania portuguesa e, embora o seu portuguesismo de fresca data pudesse ser oportunista. Seja como for, foram levados na Nachingwea e todos eles mortos.
Quanto a nós, os sete brancos e metropolitanos, fomos separados e enviados para “campos de reeducação” situados nas antigas bases Beira, Gungunhana, Central, etc. Longos meses depois, fomos reagrupados em Porto Amélia, onde um casal de médicos búlgaros, cooperantes em Cabo Delgado, mandaram-nos dar injecções, suponho que de vitaminas, para termos um aspecto menos depauperado, e deram-nos também bastante comida para recuperar algo do peso perdido.
Entretanto, na Metrópole tinha-se gerado um movimento para a nossa libertação, tendo até o Dr. Jaime Gama tido uma intervenção nesse sentido na Assembleia Constituinte. A derrota da extrema-esquerda militar em 25 de Novembro de 1975 tornou possível que o ministério dos Negócios Estrangeiros começasse finalmente a actuar e obtivesse, com a ida a Lourenço Marques de um alto funcionário, a nossa libertação.
Como era o dia-a-dia nesses campos?
Fome. Sobretudo fome. E cerca de 14 horas diárias de “trabalhos agrícolas” que, na verdade, nada produziam dada a forma rudimentar como era praticada. Claro que não havia medicamentos nem qualquer tipo de assistência.
Maus tratos?
Sobretudo à nossa dignidade. Mas quase nunca maus tratos físicos. Isto em relação aos brancos. Com os negros, as coisas já eram bastante diferentes.
No entanto, ficaste muito debilitado e vieste a ter problemas de saúde.
Já na Metrópole tive um forte ataque de paludismo e depois de ter feito análises, foi-me diagnosticado uma hepatite não-A e não-B, devida, sem dúvida, à quase inexistente assepsia nos tratamentos a que fomos submetidos em Cabo Delgado. Mais tarde, em 1994, submeti-me a uma biopsia hepática e foi então confirmada uma hepatite C, crónica, com a qual tenho vivido com a graça de Deus.
Passados estes quase trinta anos, como recordas o capitão Lopes Camilo?
Tenho o privilégio de ser sócio da Liga dos Combatentes, com as quotas em dia, desde 1978. Se há sócios que não têm pejo em cumprimentar o major-general Lopes Camilo, considerando de somenos importância as provações que outros combatentes por culpa dele passaram em Moçambique, que lhes faça bom proveito. Quanto a mim não me deixo obnubilar pelo brilho da grã-cruz da Ordem da Liberdade que ele ostenta ... no seu uniforme ... Não sou obrigado a apertar-lhe a mão, assim como não tive possibilidade de lhe apertar o pescoço quando tão alegremente confraternizava com um desertor.
Mas, como diz o Poeta “a mim ninguém me cala”, que fique aqui registado para “memória futura” (como hoje parece ser moda) o meu depoimento sobre as façanhas do major-general Lopes Camilo em Moçambique nos longínquos anos da vergonha de 1974 e 1975. Decerto o alto-comissário e comandante-chefe de Moçambique que lhe terá outorgado generosamente um ou dois “louvorzinhos” por relevantes serviços ao Exército Português, que se foram agregar à sua já reluzente folha de serviços.
Ainda a propósito do amigo do Portas (Paulo, que não Miguel)
Pois é, ainda ontem ouvi o bom do Portas (Paulo, que não o Miguel), do cds/pp, falar da honra, lealdade, valores, etc. Ou seja um “direitinhas” em potência. Aparentemente, claro. Esgravata-se um pouco e sai o que sai. Deve ser de família...
E digo isto pensando num tal Camilo que ele nomeou (ou manteve nomeado) na Liga dos Combatentes. E isso apesar de saber (ou ter obrigação de saber) de toda uma “exemplar história” do tal mfa Camilo.
O tal tipo está na Liga dos Combatentes então eu não estou. É tão simples e vertical como isto. “Eu não sou monstro ...”, como disse e muito bem Alfredo Pimenta.
Para recordar a todos nós quem é (ou foi) o tal Camilo, nada melhor do que reproduzir a entrevista dada pelo Luís Fernandes a Walter Ventura no Diabo.
Eu bem tinha avisado que havia de descobrir a entrevista e publicá-la. Como é muito grande vou apenas transcrever as partes mais “sumarentas”. Disso peço desculpa ao Luís e ao Walter.
Por isso o próximo postal trata da prisão e provações do muito nosso Luís Fernandes em território sobre administração portuguesa de Moçambique.
Fica melhor no retrato o Dr. Jaime Gama, do PS, que teve a absoluta ousadia de falar deste caso na Assembleia da República quando todos os outros se calavam, “tiritantes de coragem”. Sei que o Luís lhe agradeceu pessoalmente a sua corajosa atitude, tendo como resposta de que “só tinha feito aquilo que devia”. Honra lhe reconheçamos!
E digo isto pensando num tal Camilo que ele nomeou (ou manteve nomeado) na Liga dos Combatentes. E isso apesar de saber (ou ter obrigação de saber) de toda uma “exemplar história” do tal mfa Camilo.
O tal tipo está na Liga dos Combatentes então eu não estou. É tão simples e vertical como isto. “Eu não sou monstro ...”, como disse e muito bem Alfredo Pimenta.
Para recordar a todos nós quem é (ou foi) o tal Camilo, nada melhor do que reproduzir a entrevista dada pelo Luís Fernandes a Walter Ventura no Diabo.
Eu bem tinha avisado que havia de descobrir a entrevista e publicá-la. Como é muito grande vou apenas transcrever as partes mais “sumarentas”. Disso peço desculpa ao Luís e ao Walter.
Por isso o próximo postal trata da prisão e provações do muito nosso Luís Fernandes em território sobre administração portuguesa de Moçambique.
Fica melhor no retrato o Dr. Jaime Gama, do PS, que teve a absoluta ousadia de falar deste caso na Assembleia da República quando todos os outros se calavam, “tiritantes de coragem”. Sei que o Luís lhe agradeceu pessoalmente a sua corajosa atitude, tendo como resposta de que “só tinha feito aquilo que devia”. Honra lhe reconheçamos!
Os maus investigadores e os maus jornalistas
ou ainda:
Um cheiro intenso a cadáver
Não percam o artigo hoje inserido no Público com a opinião do Advogado António Marinho Pinho.
É uma pedrada no charco. Imperdível!
Desde o caso “Grilo” que penso exactamente o mesmo que o referido Advogado. Só que ele soube colocar por escrito – e com mestria – todas as minhas perplexidades e dúvidas sobre a nossa querida judiciária e mais o ministério público.
Exemplar!
Para vos abrir o apetite não quero deixar de vos deixar à consideração apenas um parágrafo do referido artigo:
... “O resultado está à vista: paira no ar um imenso cheiro a cadáver. E não é o da criança desaparecida. É o cadáver da presunção da inocência; é o cadáver do dever jornalístico de ouvir todas as partes com interesses atendíveis. É o cadáver do segredo de justiça. Todos já em adiantado estado de decomposição...”
Um cheiro intenso a cadáver
Não percam o artigo hoje inserido no Público com a opinião do Advogado António Marinho Pinho.
É uma pedrada no charco. Imperdível!
Desde o caso “Grilo” que penso exactamente o mesmo que o referido Advogado. Só que ele soube colocar por escrito – e com mestria – todas as minhas perplexidades e dúvidas sobre a nossa querida judiciária e mais o ministério público.
Exemplar!
Para vos abrir o apetite não quero deixar de vos deixar à consideração apenas um parágrafo do referido artigo:
... “O resultado está à vista: paira no ar um imenso cheiro a cadáver. E não é o da criança desaparecida. É o cadáver da presunção da inocência; é o cadáver do dever jornalístico de ouvir todas as partes com interesses atendíveis. É o cadáver do segredo de justiça. Todos já em adiantado estado de decomposição...”
Voltei, voltei!
Depois deste período sabático a que me vi constrangido a nada publicar neste blogue volto hoje. Os problemas (de carácter profissional) que me inibiram de ter tempo ou disposição para aqui verter alguns dos meus pensamentos estão hoje um pouco ultrapassados.
Tive também o azar de profissionalmente ter de gramar a nova lei dos abortos. Sabiam (eu não!) que as abortistas têm direito a dez dias de licença com vencimento!
E a que os desgraçados dos colegas tem de dar cobertura fazendo também o trabalho dos que faltam?
Enfim, coisas!
Tive também o azar de profissionalmente ter de gramar a nova lei dos abortos. Sabiam (eu não!) que as abortistas têm direito a dez dias de licença com vencimento!
E a que os desgraçados dos colegas tem de dar cobertura fazendo também o trabalho dos que faltam?
Enfim, coisas!
quinta-feira, setembro 20, 2007
A PERFEITA ACTUALIDADE O MANIFESTO SOBRE A PÁTRIA

Recordei ontem o tão esquecido Movimento 57.
Hoje vou transcrever parte (é muito longo) do seu “Manifesto sobre a Pátria” (merece leitura atenta - recomendo-a vivamente) publicado no número 2 , de Agosto de 1957, na revista 57.
“Aboliram a palavra do vocabulário e fecharam-na no recôndito mais profundo do subconsciente. Conhecem-na tanta como a receiam. Sabem que ela está lá, no seu lugar de exílio, sempre estranhamente viva, sempre estranhamente desperta. Dir-se-ia uma palavra mágica que eles têm medo de pronunciar, não vá ela por em movimento insuspeitadas forças. Se a encontram ao acaso de uma leitura, logo a repudiam com um frémito de ódio, de vergonha ou apenas de intranquilidade. ...
... nós também não temos medo de a dizer: porque é na Pátria e pela Pátria que o nosso destino será mais do que um esbracejar sem sentido na lama do quotidiano. Esta é a ditosa Pátria minha amada: Camões poderia continuar a ser o amável cantor de versos líricos, mas quando viu a Pátria Imperial alvitada pela ambição, pelo ouro, pelo amolecimento do ideal, deu-nos os Lusíadas e ensinou-nos que uma Pátria é uma razão viva a mover-se para um fim e não um aglomerado de interesses egoístas....
E Fernando Pessoa? ... Quanto não disseram para renegar a Mensagem, a nossa terceira grande epopeia e a maior teoria poética e transcendental da história portuguesa, para o último lugar, para trás de todas as expressões líricas a que Fernando Pessoa, como Camões, havia confiado a amargura e a angústia do seu isolamento, que levara aos limites extremos a situação antropológica do homem moderno, perdido de qualquer tradição ou e qualquer movimento teleológico.
Reconciliando-se com a tradição, reconciliando-se com o movimento teleológico da Pátria, que justamente procuravam diagnosticar e impulsionar, o indivíduo – Camões, o indivíduo – Junqueiro, o indivíduo - Pessoa, resolveram em “os Lusíadas”, em “A Pátria” e na “Mensagem” aquela perturbação lírica que neles, como nos grandes poetas, não é senão o choro imóvel perante os sofrimentos da condição humana.
No nível mais alto, que é o nível epopeico, os nossos épicos antigos ou contemporâneos aprendem enfim que, se esses sofrimentos se podem transcender, é pela acção, pelo movimento, pela viagem em direcção a um fim no qual o homem se possa redimir. Aqui reside o carácter específico e absolutamente original do génio épico português....”
(Continua)
Nota: Ao transcrever para o ficheiro este Manifesto relembrei-me de um facto que ainda hoje me vem vastas vezes à memoria com grande desprazer, para não dizer pior.
Numa das homenagens a Rodrigo Emílio, lírico de excepção, mas épico de igual ou maior valia, ouvi (em conversa final e informal) de um dos destacados membros da “inteligência” deste país presente na sala - e que fez uma das mais tristes intervenções recordatórias do nosso Rodrigo - as seguintes palavras: “temos de colocar alguém a ver toda a produção do Rodrigo e republicar toda a sua obra lírica, que o resto é para esquecer...”.
Garanto-vos que não saltei logo por deferência para com a Terá e demais família do Rodrigo. Mas que cá ficou, ficou.
Revejo agora que estas atitudes já estavam bem descritas 50 anos antes.
E que as palavras do Manifesto têm uma actualidade absoluta e permanecente.
É também por isso que voltarei ao tema.
Conversa de café e o panteão deles ...
Ontem, almoçava uma sandes (à pressa) num café perto do meu trabalho, quando a certa altura sou surpreendido por dois indivíduos com ar muito adamado que falavam do tal do panteão.
E a conversa decorria à volta dos tipos que mereciam lá estar. A Amália, sim, diziam, mas faz lá falta o Variações, visto também ter sido cantor e ser o primeiro português a morrer de sida, (eles pronunciaram em brasileiro áidesse). E além de mais era “um ícone gay”...
Meditei um pouco nas palavras dos adamados vizinhos de mesa. Se calhar eles é que tem razão. Como aquilo está, são os variações, os fernandos kás, os otelos, os charais, os pezarates, os Gonçalves, os palmas inácios, etc, que lá deviam estar. Até o Soares. E porque não o Virgolino das FP 25? Ou ainda o Antunes dos PRP/BR e mais a sua diestista mulher?
Agora tirem de lá é os monumentos do Condestável, do Infante, de Vasco da Gama, etc. Ou seja dos verdadeiros Portugueses Patriotas.
Quanto mais não seja por uma questão higiénica. De contágio, de saúde pública.
Assim é que fica bem o panteão do regime!!!!
E a conversa decorria à volta dos tipos que mereciam lá estar. A Amália, sim, diziam, mas faz lá falta o Variações, visto também ter sido cantor e ser o primeiro português a morrer de sida, (eles pronunciaram em brasileiro áidesse). E além de mais era “um ícone gay”...
Meditei um pouco nas palavras dos adamados vizinhos de mesa. Se calhar eles é que tem razão. Como aquilo está, são os variações, os fernandos kás, os otelos, os charais, os pezarates, os Gonçalves, os palmas inácios, etc, que lá deviam estar. Até o Soares. E porque não o Virgolino das FP 25? Ou ainda o Antunes dos PRP/BR e mais a sua diestista mulher?
Agora tirem de lá é os monumentos do Condestável, do Infante, de Vasco da Gama, etc. Ou seja dos verdadeiros Portugueses Patriotas.
Quanto mais não seja por uma questão higiénica. De contágio, de saúde pública.
Assim é que fica bem o panteão do regime!!!!
quarta-feira, setembro 19, 2007
MOVIMENTO 57 – 50 ANOS

Faz este ano 50 anos que António Quadros lançou, juntamente com um grande grupo de intelectuais portugueses a revista “57” e o seu movimento 57 (de 1957).
Tratou-se de uma pedrada no charco da mediocridade que se desenhava em Portugal com o fim do consulado de Ferro à frente dos destinos culturais da nossa Pátria.
Juntando-se a grandes valores da nossa intelectualidade (nos campos da pintura, da filosofia, da literatura, da arte e da ciência) António Quadros lançou o seu movimento. Com ele estiveram, entre outros Orlando Vitorino, António Telmo, Ernesto Palma., Afonso Botelho, Azinhal Abelho, Rui Carvalho dos Santos, etc.
Claro que um movimento destes em que os seus autores afirmavam “esta é a ditosa Pátria nossa amada e ao seu serviço colocamos aqui o nosso corpo, a nossa alma e o nosso espírito” não passaria incólume aos instalados do regime e aos seus directos opositores.
Ficou célebre a crítica de Francisco de Sousa Tavares (o Tareco) no debate sobre o movimento realizado no Centro Nacional de Cultura. Nesse debate o Tareco assumiu as funções de Torquemada, fazendo-se acusador público do partido dos potentados conformistas Parecia que tinha sido cometido um crime lesa pátria contra os instalados. O jesuíta Pe Dias de Magalhães, que presidiu à sessão condenou veementemente o movimento como coisa de ignaros e perigosos agitadores. Os vossas excelências estavam eufóricos. Tinham condenado às galés esses perigosos agitadores da “extrema direita, com ares de intelectualidade – tareco dixit” João Gaspar Simões, o papa da crítica literária cedo se juntou aos acusadores com um artigo demolidor no Jornal de Notícias. E até o Diário da Manhã (órgão oficial da União Nacional) pela pena do Pe (também jesuíta) Gustavo de Almeida se lhe seguiu (é preciso não esquecer que para os marcelistas, que estavam na sua caminhada rumo à (sua) vitória (de Pirro), qualquer coisa que pudesse cheirar a Ferro era para destruir e rapidamente.
Passado pouco tempo o Movimento e a Revista foram extintos. O imobilismo conservador e a dificuldade de evolução intelectual de certos indivíduos da nossa cultura não lhes permitiu aguentar com mais um Almada em cima. Pessoa (muito) e Almada (ainda mais) já lhes tinham sido muito difíceis de digerir. E não chegaram a “levar” com o Rodrigo Emílio (senão o que seria...).
Essa é que foi a verdade. Na realidade a história repete-se!
Os maratonistas
Quando os funcionários públicos querem trabalhar depressa e bem – trabalham! E não venha ninguém dizer o contrário.
E se necessário for fazer uma maratona contra o tempo, aí somos mesmo bons (lembrem-se da Rosa Mota e do Carlos Lopes). Somos campeões, somos os melhores!
Pois a nossa querida policia e o nosso querido ministério público vieram agora apresentar o trabalho do desmantelamento de uma perigosa organização de extrema – direita. Cinco meses (só) levaram eles para procederem à acusação de 36 marmanjos. (12 activos e 24 passivos – não, não tem carácter sexual...).
Assim é que eu gosto. A partir desta data vamos ver todos os “crimes” resolvidos e “acusados” neste prazo. Grande vitória! Assaltos a bancos – 5 meses! Assassinatos – 5 meses!, Violações – 5 meses! Criminalidade económica – 5 meses! Etc. – 5 meses!
Isto é que é o verdadeiro simplex! Aleluia!
A verdade, doa a quem doer, é que este governo funciona. Nada mais poderá demorar do que 5 meses, caso contrário será objecto de chacota de toda a judiciária contra os incompetentes que não sabem trabalhar.
Nota: como é óbvio esta maratona nada teve a ver com a lei agora aprovada do novo código do processo penal. Poderia lá ter tido!
E se necessário for fazer uma maratona contra o tempo, aí somos mesmo bons (lembrem-se da Rosa Mota e do Carlos Lopes). Somos campeões, somos os melhores!
Pois a nossa querida policia e o nosso querido ministério público vieram agora apresentar o trabalho do desmantelamento de uma perigosa organização de extrema – direita. Cinco meses (só) levaram eles para procederem à acusação de 36 marmanjos. (12 activos e 24 passivos – não, não tem carácter sexual...).
Assim é que eu gosto. A partir desta data vamos ver todos os “crimes” resolvidos e “acusados” neste prazo. Grande vitória! Assaltos a bancos – 5 meses! Assassinatos – 5 meses!, Violações – 5 meses! Criminalidade económica – 5 meses! Etc. – 5 meses!
Isto é que é o verdadeiro simplex! Aleluia!
A verdade, doa a quem doer, é que este governo funciona. Nada mais poderá demorar do que 5 meses, caso contrário será objecto de chacota de toda a judiciária contra os incompetentes que não sabem trabalhar.
Nota: como é óbvio esta maratona nada teve a ver com a lei agora aprovada do novo código do processo penal. Poderia lá ter tido!
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