quarta-feira, janeiro 02, 2008

Ave Azul

Também o aveazul.blogspot.com lembrou o muito nosso Rodrigo Emílio num postal de 23 de Dezembro.

Sabe-me sempre bem passar por este local tão bem frequentado.

O ano 2007 visto cá pelo rapaz...

Com o novo ano já implantado neste pais de néscios e carneiros apetece-me atribuir uma série de Prémios. Os Prémios MANLIUS 2007. Vou-me esquecer de muitos. Não reparem, nem se ofendam. É sobretudo da idade, que já não perdoa...

Pois aqui vão, sem qualquer espécie de seriação, ou seja à medida das lembranças:

Prémio o "susto" do ano:

a ameaça de que o BOS se iria calar (o conselho do juanito espanhol não era para ele, juro...). Ainda bem que reconsiderou. Faz muita falta.

Prémio as "penas" do ano -

O facto de os engenheiros (estes são verdadeiros) terem sido pouco prolixos. O propriamente dito pouco escreveu (uma lástima). O Absonante está completamente parado. Vejam lá senhores engenheiros, arranjem uma engenhoca qualquer para nos voltarem a dar todo o prazer de vos ler.

Prémio Oh Goncho, arranja lá um tempinho, sff -

Para o site do Rodrigo Emílio. É necessário manter a chama viva e actualizar o sítio. Eu sei que o Emílio de Mello te dá cabo da tua cabeça e de todo o teu tempo, mas faz lá o favor a todos nós...

Prémio o Imperdível do ano -

Quem mais do que o nosso Nonas, difusor oficial de tudo o que é interessante na net. O casamento perfeito da ética com a estética.

E amanhã há mais...

RODRIGO EMILIO E O NATAL

A agência de difusão de notícias da Igreja Católica distribuiu no dia 22 de Dezembro um artigo de José Carlos Seabra Pereira (professor de Literatura Portuguesa e de Teoria da Literatura na Faculdade de Letras de Coimbra e na Faculdade de Letras da Universidade Católica) sobre o Natal na Poesia Portuguesa.

Bom artigo, óptimo artigo, melhor diria, bem documentado, e termina com um dos melhores poemas de Natal de Rodrigo Emílio.

... "4. Não menos oportuno será exemplificar, com a lembrança de uma grande voz poética prematuramente desaparecida, como a literatura portuguesa continuou nos nossos dias a viver o Natal de Cristo.

O dramatismo lírico e a veemência verbal de Rodrigo Emílio ganham sempre altura quando animados pela piedade católica, que se afervora no cadinho das íntimas aflições e das agonias de homem português; e assim se manifesta tanto em «Pequeno altar de poemas, para depor aos pés da Virgem de Fátima», quanto nos poemas de Natal engastados nos livros Mote para motim e Coração mal couraçado e depois retomados na sequência «Consoadas da memória à mesa da solidão», do livro A Segunda Cegueira,. Com Rodrigo Emílio se exemplifica, aliás, como na segunda metade do séc. XX os dados existenciais da memória afectiva (e do cenário tradicional da celebração pública e familiar do Natal) se entrelaçam com a evocação da Sagrada Escritura e com a contemplação do enlace do ministério da Encarnação e do mistério da Paixão e Morte de Cristo na economia da Redenção (como se vê no poema «Música de neve, o silêncio branco»). Por isso também exemplifica que na poesia portuguesa contemporânea o lirismo de Natal continua a passar pela tensão espiritual da «Vigília» edificante:

«Meu Deus, aqui estou. E no mais não repares,

Por ser esta noite a Noite que é!

Em versos Te rezo. E no mais não repares,

Por ser esta noite a Noite mais calma!

-Conduz-me aos mais altos lugares

Da minha fé!

-Conduz-me aos mais altos lugares

Da minha alma!»



É bom saber que o nosso muito Rodrigo continua a ser lembrado e celebrado por todos aqueles que gostam de Poesia. A ler absolutamente.

Bem hajam!

Link: http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid=54478

A minha (atrasada) Prenda de Natal



Um dos mais belos poemas de Natal. Ou uma das razões para chamarem a Amândio César o Neo-Realista de Direita.


NATAL


Nasceu!
Numa garagem abandonada, coberta de chapa de zinco,
E num caixote velho de latas de óleo,
Entre desperdícios sujos e usados.


Nossa Senhora e S. José tinham vindo pela estrada
Os pés no asfalto negro, onde circulavam carros de luxo:
Pedir boleia, pediram, mas ninguém os viu ou quis ver,
Ou escutar o gesto...
Iam todos apressados para a ceia da noite,
Desbragada como um conta-quilómetros
E cheia de neblina e de promessas.


Nasceu!


Num caixote velho de latas de óleo,
Entre desperdícios sujos e usados.
O clarão dos holofotes chamou lã os vadios de todas as noites:
Os guarda – nocturnos , os polícias de giro,
Os que não têm cama para dormir,
Os poetas e os fugidos à lei — todos! —
Todos os que naquela e nas outras noites
Não têm para onde ir, nem têm onde comer.
Foi, porém, o clarão dos holofotes gastos que os levou lá:
E viram, sobre os desperdícios sujos, num caixote velho,
O Redentor do mundo,
Aquecido pelos dez cavalos-vapor de um velho "Ford T"
Que, trabalhando, acordava a vida no arrabalde longínquo.


S. José e Nossa Senhora choravam:


TODOS pediam no mundo a ressurreição do Cristo!
E Ele viera, Ele encarnara de novo
Através do ventre puríssimo da Virgem,
Sob a custódia lirial do descendente de David.


Os donos de carros de luxo cortavam o nevoeiro
Comprometidos pelas amantes caras que ficavam para trás;
As camionetas de transporte temeram a polícia das estradas
E os outros todos também não quiseram dar boleia
Ao Filho de Deus!

Foi assim que Nossa Senhora veio num pé a pé cansado
Pela estrada fria e asfaltada
Que ganhara um concurso nacional de arranjo e beleza!


Na cidade onde chegaram pela noite adiante
Todos comiam e bebiam o símbolo dessa noite:
As autoridades locais tinham mesmo dado aos pobres
A esmola de um ceia em cartolina...
Por isso todos estavam ausentes das ruas e dos lugares do costume,
Menos aquele motorista que odiava Deus
E que não tinha mulher, nem filhos
E que por esse motivo estava ali, na praça,
Para atender os fregueses transviados.
Para esse a gruta de Belém não dizia
“Gloria in excelsis Deo” mas “Gloria in excelsis Dollar”!
E tinha a alma carregada de ódio,
Embora o coração fosse bom,
Tão bom
Como se fosse ele próprio o Cordeiro Imolado.


E foi ele que indicou a garagem deserta,
Numa ru suja onde só ilhas humanas
Habitavam, viviam e continuavam.
Foi por isso que Jesus Menino nasceu outra vez entre os homens,
Naquele barracão de lata zincada,
Num caixote de óleo, apodrecido, entre desperdícios
Que aqueceram e afagaram o seu corpo tenro.
Os faróis velhos incendiaram o nevoeiro espesso
E chamaram os vagabundos daquela noite;
Os anjos cantaram as peças enrouquecidas do klaxon
E os cavalos do velho motor cansado encheram de calor
Aquele recanto humano,
Onde todos os homens de boa vontade
Não ajoelharam perante o Dollar.


Os vadios, os vagabundos, os guarda – nocturnos,
Motoristas e guarda – freios dos eléctricos
Atraídos pela luz, pelos cânticos e pelo calor divino
Que irradiavam daquela garagem,
Foram todos em debandada para lá.
E prostraram-se diante do Filho de Deus,
Diante da Segunda Pessoa da Trindade,
Diante da Criança Divina
Igual – no corpo – às pobres, magras e sujas,
Mal vestidas, esquálidas, crianças humanas.
Prostaram-se e choraram
E chorou e rezou até
Aquele motorista que odiava Deus!


E três fugitivos das Nações Ocupadas pela liberdade alheia
Vieram – evadidos dos campos de concentração –
Oferecer as suas feridas, as suas fomes, o seu sangue inocente!


As buzinas dos carros todos
Tocaram a alegria daquela noite sem par...


Só o menino chorou para dentro
Porque sabia que o prenderiam outra vez,
trinta e três anos depois,
Por sedicioso, como revoltado contra a Lei,
Aqui, por não ser do Pacto do Atlântico
Alem, por não estar na Linha Geral do Partido.


Mas os humildes de todo o mundo
Vieram e compreenderam
A mensagem daquela noite sem par.


Braga, Noite de Natal de 1952

AMÂNDIO CÉSAR

terça-feira, janeiro 01, 2008

Passei à clandestinidade

Como fumador (relapso e contumaz) fui hoje obrigado a passar à clandestinidade.

O que me vale é que já tenho vasta experiência da situação. E se consegui dar baile aos copcães e sus muchachos, não é uma asae "talibanizada" e de pacotilha que me mete medo.

Tenho tudo planeado, circuitos montados, casas de apoio, etc...

Afinal o PREC sempre serviu para qualquer coisa.

Apostilha: Imaginem que o Salazar - Católico verdadeiro, fiel à Doutrina - resolvia, em nome dos seus Princípios, proibir a venda da pílula. Hoje chamavam-lhe todos os nomes que lhe chamam e mais alguns. Mas como são "estes" a meter-se connosco, tudo está bem, Madame la Marquise...

domingo, dezembro 30, 2007

Com que então um anito?

Pois bem o nosso muito estimado Nonas cumpriu hoje um ano das suas andanças blogoesféricas.

E comprou uma prenda de truz para assinalar esse aniversário. Rabi Jacob, do grande Loius de Funés. Pois que te divirtas.

Mas para o ano quem oferece a prenda sou eu. E vou ver se encontro os filmes do Dom Camillo e do Peppone.

Deixo-vos uma cena quando D. Camillo leva o comunista Peppone a fazer um discurso de defesa da Pátria, contra a linha do "partido" que defendia que nenhum comunista poderia alguma vez levantar as armas contra a pátria dos socialistas - a União Soviética.

De morrer a rir.

Aliás para um esquerdista estes filmes do Fernandel, baseados nos livros de Guareshi, são mesmo pornográficos...



Parabéns e obrigado por tudo que nos tens dado. E, a propósito, que contes muitos.

sábado, dezembro 29, 2007

De joelhos lhe peço, senhor licenciado em engenharia

Por favor não se lembre de fazer em 2008 nenhuma cimeira Portugal - Governo PS.

Veja-se as desgraças que aconteceram nas cimeiras por si organizadas do ano de 2007

Sempre oportuno e sempre atento

O nosso Nonas continua em grande forma. E não deixa passar uma!
Falei, a propósito do aniversário do nosso Goulart, de um famoso número do Agora, sobre a sua responsabilidade, para relembrar alguns artigos que por mim foram considerados "geniais". Sobre os mesmos mantenho o que disse: houve colaboradores com artigos geniais! Outros, enfim... Como tudo na vida.

Graças ao Nonas conseguimos ter acesso em linha a alguns deles (alguns dos melhores). Também o Nonas revelou o nome de alguns que mudaram de camisa. É normal. Veja-se o maravilhoso artigo do Goulart que publiquei na mesma data. A tal carta aos laranjinhas. Vejam como bate certo.

Obrigado Nonas. Prestaste o que hoje se chama um "verdadeiro serviço público". Bem hajas

sábado, dezembro 22, 2007

Obrigado VL



A minha sincera homenagem ao autor deste cartaz. VL no seu (sempre) melhor!

Bem hajas pelo teu Talento e pela tua sempre enorme disponibilidade. E por tudo de bom que nos tens dado ao longo de todos estes anos! Também para ti um especial "Bom Natal e Bom 2008"

Espírito natalício



Como a partir de amanhã estarei indisponível para esta página,(obrigação familiar a isso obriga) aproveito para vos dar esta bela "árvore de natal", que sendo originalmente de raiz pagã se integrou perfeitamente na "tradição natalícia portuguesa". Só que (juro mesmo) não é esta que está em minha casa (mas tenho pena ...)

Não fui só eu, que bom!

Também o estimado Nonas resolveu lembrar o aniversário do Goulart. Como fiquei contente. E logo com uma bela troca de ideias (e belas imagens) entre os nossos (muito nossos) Rodrigo e Goulart. Bem hajas.

"Eles" estão possessos



Uma das desvantagens de não ter televisão é o perfeito desconhecimento de que enfermo no que respeita às "celebridades" da nossa praça. Desconhecia sequer a existência da D. Cristina Areia (cuja foto foi surripiar à google). É uma actriz de teatro e tv, segundo li na wikipedia. Trabalha na TVI em diversos programas. Ou seja é a chamada "figura pública".

Mas porquê falar desta Senhora? Pois simplesmente porque toda a "esquerdalhagem" da nossa praça está possessa com ela.

Mas porquê, perguntarão os meus estimados leitores? Pois simplesmente porque se deslocou à Alfama (ao Centro Cultural Magalhães Lima - belo patrono, sem dúvida...) para uma festa de Natal. Competia-lhe dar prendas de Natal a cerca de cem crianças apoiadas lá pelo Centro. Começou a chamá-las nominalmente e aí deu-se a barraca. pois eram as Iaras, as Hanias, os Bin, os Moacid, as Kenyas, as Regianes, etc. Até que no meio daquilo tudo surgiu uma Ana. (comentário da actriz: Ana, um nome normal, viva a tradição, viva!) e um António: "mais um nome normal! António, Viva Portugal, batam palmas a Portugal!).

O que ela foi fazer. Uma jornalista do Público que assitiu, de nome Bárbara Reis, até queria que a actriz estivesse "consciente de que estaria na prisão se as piadas xenófobas fossem crime" e pergunta-se mesmo se a D. Cristina Areia será uma "xenófoba fundamentalista". Ou seja, vamos a ver quando é que a referida actriz é posta na prateleira. Sim a pergunta tem a ver com o quando, porque o se não tem dúvidas nenhumas. Ou seja, está feita. Mesmo que se desculpe de joelhos. "Eles" quando agarram, não largam...

Sem dúvida nenhuma estamos no "comunismo do século XXI", situação que eu vou tentar explanar detalhadamente num próximo artigo para a "Alameda Digital". Antigamente a esquerda calava as pessoas com a chantagem do "fascista". Hoje mudaram de agulha, a chantagem chama-se "racismo". Sim porque o fascismo (já) não dá grelha, mas o racismo, dá cana e da grossa!!!

Parabéns Goulart Nogueira


Pois é, hoje o muito nosso Florentino Goulart Nogueira cumpre 81 anos. Incapacitado há cerca de 5 anos, vegeta hoje na sua Beira (em Santa Comba) um dos melhores e mais claros espíritos portugueses.

Não quero cometer o crime da ingratidão para com o Mestre de tantas e tantas gerações nacionalistas portuguesas.

Por isso hoje o recordo. Vítima de um saque na minha biblioteca pouca coisa tenho hoje do Goulart. No entanto quero recordá-lo aqui como o Polemista, o Doutrinador, o homem de Teatro, o Poeta, o Militante. Acima de tudo o Homem de Cultura.

Deixo-vos alguns textos que vão desde o período do "Tempo Presente" até ao pós 25 do 4. Também na Poesia deixo-vos dois exemplos da sua Poesia. Diferentes, sim, contrastantes, também, mas revelando muito do espírito do nosso Goulart.

As novas gerações devem (tem a obrigação) conhecê-lo e acima de tudo estudá-lo. Foi Mestre de tantos de nós. Foi o "Mestre" do também muito nosso Rodrigo Emílio. Que continue o Mestre de todos nós.

Não quero deixar de recordar dois factos: um é o da sua direcção do "Agora", que permitiu um dos melhores números de sempre desse Jornal. Refiro-me ao número dedicado ao Fascismo. Genial o seu artigo, genial a organização, geniais os colaboradores (não quero esquecer - de modo algum - o magnífico texto de Caetano Beirão, que revisito - com que prazer - amiudadas vezes). O outro facto é o da sua prisão no pós 25 do 4. Na sede do MAP. A saga do seu transporte para Caxias (comendo a sua enorme agenda - com capa e tudo - para que esse precioso bem não caísse nas mãos dos copcães) e toda a sua brilhante atitude nas masmorras da democracia.

Meu caro Goulart, do fundo do coração, e com toda a Amizade dou-te os meus mais sinceros parabéns, por seres e teres sido como sempre foste.

A Besta Esfolada - Mas que adultíssimas bestas!

A Besta Esfolada», por Goulart Nogueira
Tempo Presente, Agosto de 1959

De um dos nossos colaboradores que escrevem assuntos filosóficos, houve, em diversas ocasiões, quem dissesse: «Argumentação infantil...». O público «snob» e «intelectual» que fez as terças feiras clássicas do Tivoli, que, como gélida corrente, mete observações disparatadas no Centro Nacional de Cultura (ou, se é mulher, profere adoráveis dislates articulados a uma torneada perna cruzada que se balanceia), o público «definitivo» e «informado» de A Brasileira, o público da Bénard, e mais o público atafulhado de folhas «culturais» de cinema, o público «consciente», o público «responsável», o público «parvenu» à cultura e cheio de embófia, o público aldrabão, ou ignorante, ou parvo, ou precipitado, ou venenoso, ou primário, ou cobarde, ou gregário, quer seja público que lê, quer seja multidão que escreve, o público que, sabendo embora algo de alguma coisa, ou até não sabendo nada de nada, desembesta a falar de tudo, mesmo do que não sabe, e a julgar e criticar tudo, mesmo o que não estudou – esse público acha pobre, banal, «infantil» e fraco o nosso colaborador. Esse público há de classificar de igual modo certas argumentações fundamentais de Zenão de Elea, de Platão, de Hegel, de Gentile. Porque esse público, à semelhança das beatas diluindo se sob o vaporizador de pregadores barrocos ou delicodoces, admira somente os palavrões científicos, o raciocínio obscuro, o rapto lírico, a solene gravidade, a acrobacia de circo, a retórica balofa e ardorosa, a sensação, o discurso, o sentimentalismo, a complicação intelectual, a pirueta humorística. Ao tal público sempre lhe repugnou – que horror! – a simplicidade, a razão, a evidência, o equacionamento básico das questões. Mas quando tudo se entrança, apenas com palavras como «problemática», «fenomenológico», «super estrutura», «ambiguidade», «existentivo», ou quando, de olhos em alvo, se valsa, ao ritmo de «liberdade» e «dignidade humana» – ah! então, sim, os severos senhores, as damas, as meninas namoradas, os católicos progressivos, os cineclubistas, os rabiscadores de jornais, os «surrealistas» de pacotilha, os «monárquicos» do Chiado, os «nacionalistas» «históricos», os leitores dos «Poètes d’aujourd’hui», os que não falham às estreias, os idólatras de Brecht ou de Becket ou de Ionesco, são percorridos por um murmúrio de admiração «formidável», o pescoço descai lhes um bocadinho para a banda, fazem boquinha pregueada e confirmante («Isto sim!»), chegam a ter delírios de admiração e gritos selvagens de aplauso àqueles crisóstomos. Mas que adultíssimas bestas!

Exercitem a inteligência! Combinado?

«Pelo amor de Deus, senhores! Um pequeno esforço!
Às vezes, não apetece comer, mas quem se entregar ao fastio, e não comer nada, acontece-lhe como ao burro do inglês... e morre.
Às vezes é preciso fazer ginástica ou qualquer exercício para não emperrar, para desenvolver a resistência, para defender de amolecimentos e franzinices e banhas...
Pelo amor de Deus, senhores! Não deixem o cérebro ficar lisinho como triste massa espalmada! Não deixem ficar a cabeça oca!
Pelo amor de Deus! Lembrem-se de que o Criador lhes doou uma inteligência para pensar, reflectir, assimilar e enriquecer!
Fora com a preguiça mental! Fora com a pressa! Demorem um bocadinho: e apliquem-se! Leiam aquelas coisas que talvez lhe custem, mas são boas e necessárias! Cultivem-se, doutrinem-se, aprendam as razões da vossa fé para não acontecer que um dia acabem outros por atraídos e levá-la ao engano, pois ela se invertebrou em simples boa-fé...
«Nem só de pão vive o homem», senhores! O homem não vive só para as questões do dia-a-dia, para os problemas concretos, para as coisas da vidinha.
Só lhes interessa o caso imediato? A História pessoal? O escândalo guloso? O que lhes toca mesmo pela porta? A pílula fácil de engolir? O bom-bom que se derrete sem mastigar?
Oh! Oh! Meus senhores, que vergonha! Querer, apenas, assuntos de encher o olho, mas que se lêem com o rabo do olho, ao subir para o eléctrico ou ao dobrar a esquina! Qualquer dia acabam a ler só histórias aos quadradinhos ou anedotas!
Correis ao chamativo! Como o touro, vejam lá, que marra no vermelho, cor muito viva! Com esse apetite de deslizar sem incómodo, com essa procura de fácil vida, ficais tão parecidos com as mulheres de vida fácil...
Respeitem-se mais um bocadinho! Os senhores valem bem um esforço de concentração e aplicação. Leiam também o difícil, leiam um ou outro artigo longo, leiam a doutrina. Iremos perder o gosto da leitura? Acabaremos por reduzir-nos a público de cartazes ou de bombas jornalísticas?
Demorem-se na doutrina! Leiam, releiam, estudem, comentem-na e discutem-na com os amigos! Ainda lhes tomam o gosto, verão! É como a cerveja: começa por ser amarga, mas depois...
As direitas não são estúpidas, não podem ser estúpidas! Ser umas bestas ou bestificar-nos contradiz a dignidade humana para que fomos feitos.
Pelo amor de Deus, senhores! Ao menos, uma hora por semana, exercitem a inteligência! Combinado?»

Goulart Nogueira, in Agora – n.º 340, pág. 12, 20.01.1968.

PARA OS NACIONALISTAS COR-DE-LARANJA, COM AMOR

Eles argumentam com a mudança dos tempos, com o realismo de situações diferentes, com outras mentalidades e necessidades (...) O mundo já não é o mesmo, dizem eles, o nosso País já não é o mesmo. As pessoas têm outro crer e outro querer. Os costumes, os comportamentos, as modas, o estilo, o ambiente alteraram-se. Há que acertar o passo, há que nos adaptarmos, há que abandonar o que a gente de hoje nega, o que os donos do mundo e da inteligência e do sentimento condenam, o que o dilúvio do pós-guerra submergiu. Uma outra era nasceu, desde o material ao espírito, desde a técnica às consciências, desde a religião à Política.
Eles, os práticos e realistas, os que enterram o passado a mil metros do chão incorrupto, despem a alma com a mesma facilidade com que tiram os sapatos, enchendo o ar com a pestilência dos pés e da sua vidinha. Eles namoram a opinião pública e trapaceiam-na, babujam os tornozelos do povo e sujam-no, idolatram o Homem e demitem-no e envenenam-no. Eles não têm fé, nunca tiveram fé, limitaram-se, a todas as horas e sempre, a papaguear as palavras e as ideias que estavam ou estão na moda, vanguardistas, da cauda, epígonos-saguís. Debitam palavras e ideias que convenham ao adaptacionismo nojento, as boas como as más, as verdadeiras como as falsas; com os mesmos gestos e tons entusiásticos ou graves, ardorosos ou sensatos. Os espertalhões. Os palhaços.
(...) Os modernaços! Trinam a Democracia e o Liberalismo, negam os Mestres e a Ideia antiga, renegam o baptismo que receberam. Ou pretendem conspurcá-los em conúbios monstruosos. Falsários e mendazes, calcam, com a botarra ou a pantufa, os símbolos, os signos e os ideais que, noutro tempo, veneraram e ergueram como bandeira luminosa.
Velharias... Mas a Democracia e o Liberalismo não são velhos? Não estiveram expulsos e desacreditados já? O Comunismo e o Anarquismo são mais recentes do que a Nova Ideia que deu asas aos estados e aos povos no segundo quartel do século XX!
(...) «Para trás não se volta», murmuram-nos, gritam-nos eles, insistentes e arrotando sabedoria. Tecnocratas ou ideólogos da adaptação democractóide e liberalóide, sabotadores do Regime em construção, trânsfugas da Verdade e da Fé, habilidosos saloios, querem destruir-nos o fundamento e abandalhar a alma. Dizemos-lhes que não.

Goulart Nogueira

Ganimedes

Cordeiro de alvorada, em seu cabelo,
Adormecido, nítido, encostado
À testa de montanha lisa e gelo.

O gelo se desfaz, de manso, em neve
No mar do rosto, com corais na face,
Corais na boca entreaberta e leve,

E tomba, em gotículas de orvalho,
Nos ombros torneados e brilhantes,
Qual folha nova a despontar do galho.

Nos olhos, e esperando um prado extenso,
Duas gazelas líquidas e azuis
Fingem o acenar branco dum lenço.

Um lenço, pelo corpo a desfolhar-se
Em rosas-chá, em mármore e em quentura,
No púbis, nuvem de oiro, vai dobrar-se.
Aquela juventude ainda é pura.

Quem tem a manhã na fronte
E relâmpagos na mão imperial,
Que tem na boca límpida uma fonte
E dois robles no porte de imortal,

Com sua imagem de águia à terra desce
E rouba o pastor grácil que adolesce.

Pastor humano, hoje é pastor divino.
Loiro,
Loiro e belo rapaz maravilhoso,
Elbelto como um hino,
Tão pleno como um arco impetuoso,
Em suas mãos de Via-Láctea
Serve aos deuses a Vida e o alimento,
Licor de luz e de rubis doirados.

E as suas mãos de Via-Láctea
São o perfume e o vento
Do seu corpo de valados.

Paisagem branda ao sol nascente,
Um olhar dele o representa.
É sempre belo e adolescente:
Aos próprios deuses alimenta.

E porque tem, como a cereja,
Formas alegres e completas,
Tal como Zeus lhe quer e o beija,
Amam-no todos os Poetas.

Távola Redonda, LÍRICAS PORTUGUESAS, PORTUGÁLIA EDITORA, 3ª SÉRIE, PAG. 453

Meu Deus Senhor, por onde se começa?

Meu Deus! Só quando renunciar ao mundo
Abarcarei o mundo.

Sei isto e outras coisas mais
Que me dizem dos sítios onde vais.
Sei isto e os compêndios de escolar
Que dizem o caminho para Te achar.
Sei isto, e a intelegência mostra que é.
Só não sei o gosto ao amor. Só não sei a força à fé.

Meu Deus Senhor! Renunciar ao mundo…
Nada querer para Te querer a Ti.
Nesta empresa me gasto e me confundo,
Mas moras muito alto ou muito fundo
Que sinto o mundo e nunca Te senti.

Ó dono dos exércitos – vencido!,
Inerte, quando a terra me conquista!
Só me falas nas coisas escondido…
E eu nas coisas me perco, ó som perdido,
Ó eco enganador, ó falsa pista!

Meu Senhor que encontrei na inteligência
E explicando o insucesso dos meus passos,
Que conheci, de nome, nos regaços
De Mãe, Tias e Avó, com negligência!,
Senhor intemporal que não tens pressa,
Que envenenas os sítios onde beijo,
Que me afogas de dor no que desejo,
- Meu Deus Senhor, por onde se começa?

[Revista Tempo Presente, nº 26]

sexta-feira, dezembro 21, 2007

O gasta milhões ...



O bom do presidente da câmara de lisboa (que continua sem pagar a quem deve) decidiu atribuir um subsídio(zinho) de 80 mil contos ao tal do lisboa-dakar, rally que é conhecido no mundo inteiro por "Dakar", sem qualquer referência à capital deste belo reino dos reinadios que se divertem à conta dos papalvos...

Roubei a foto inserida neste postal ao wehavekaosinthegarden.blogspot.com. Mas ao menos, eu assumo!

Apostilha: Sabiam que a "santa Casa da Misericórdia de Lisboa" (?) atribui um patrocínio de um milhão de contos a esta brincadeira... E eu a pensar que as receitas do jogo eram para os desamparados e deficientes. Eu que devo ser deficiente mental para acreditar nas histórias da carochinha...

Natalis Solis Invictus


Começa hoje o renascimento do Sol.

A Igreja Católica fez coincidir esta data sagrada com o nascimento de Jesus da Nazaré.

A pensar no Nazareno e no Portugal de hoje, aqui vai um excerto de um Poema de Couto Viana, do seu livro de 1977 (Nado Nada). Este Poema é dedicado a Manuel Maria Múrias

(…)
Não nasças! Nada temos que te dar:
Mirrada a mirra, o oiro gasto
E o incenso apenas a incensar
O ladrão que roubou o rebanho e o pasto.
(...)